É inaceitável e até inacreditável que o maior hospital público do Rio Grande do Norte, o Walfredo Gurgel, esteja novamente sem tomógrafos funcionando. Pela terceira vez em menos de dois meses, o serviço essencial de diagnóstico por imagem está interrompido, o que compromete o atendimento de urgência e emergência e coloca vidas em risco.
Sim, vidas em risco. Por mais que pacientes sejam transferidos para outros hospitais – como o Deoclécio Marques, em Parnamirim –, estamos falando de perda de energia, recursos financeiros e principalmente tempo, o que é extremante precioso em determinados quadros de saúde. Alguns pacientes simplesmente não podem esperar.

Os dois tomógrafos do Walfredo Gurgel têm 9 e 15 anos de uso. São equipamentos já considerados antigos, que se tornam obsoletos diante do avanço tecnológico e principalmente da sobrecarga diária de pacientes – a média é de 180 exames por dia. Quando não quebram, os tomógrafos operam no limite.
Só a demanda constatada já justificaria a aquisição de pelo menos mais um equipamento. No entanto, o Walfredo segue com dois tomógrafos – e em vários momentos, sem nenhum, já que as quebras são recorrentes. Vale ressaltar que, em se tratando de máquina, e ainda mais uma máquina tão exigida, é normal que haja necessidade de manutenção corretiva ocasionalmente. O problema aqui está na frequência delas e na aparente normalização do que ocorre. É importante que se diga: isso não deve ser normal.
O cidadão que paga impostos e depende do SUS não pode ser refém de equipamentos sucateados. Tomógrafos são instrumentos básicos da medicina moderna; sem eles, não há diagnóstico preciso, não há agilidade em casos de trauma, AVC, câncer e outras doenças. É impensável que uma capital como Natal, em pleno 2025, veja o principal hospital do Estado parcialmente paralisado por falta de um tomógrafo que funcione.
O problema, como sempre, não é apenas técnico. É de prioridade. O governo estadual admite que há uma programação para aquisição de um novo tomógrafo, mas sem previsão concreta. Enquanto isso, o deputado federal Sargento Gonçalves (PL) apresentou uma solução que parece ser viável: usar emendas parlamentares já existentes, originalmente destinadas ao Hospital Santa Catarina, para equipar o Walfredo Gurgel — onde o serviço já está implantado e a necessidade é imediata.
Em entrevista ao AGORA RN, Gonçalves explicou que fez um acordo com a Secretaria de Saúde para destinar R$ 4,5 milhões para o Santa Catarina em três parcelas de R$ 1,5 milhão. A primeira parcela foi paga em junho de 2024 e foi destinada a adequações na instalação elétrica do hospital – seria a preparação para receber um tomógrafo.
As duas próximas parcelas, segundo ele, seriam destinadas a outros ajustes técnicos e à compra do tomógrafo propriamente dito. Mas ele disse que autoriza a Secretaria de Saúde a encaminhar os recursos do Santa Catarina para o Walfredo Gurgel. “A gente quer ajudar, independentemente da bandeira partidária”, afirmou o parlamentar.
A Secretaria de Saúde insiste em manter o planejamento inicial de instalar o equipamento no Santa Catarina, mesmo diante da evidência de que o Walfredo vive um colapso recorrente. É compreensível que haja etapas legais e projetos em curso (e o Santa Catarina também precisa do tomógrafo), mas parece haver falta de sensibilidade e capacidade de resposta diante da urgência.
Além disso, o secretário de Saúde informou que já pediu ao Ministério da Saúde que encaminhe um novo equipamento para o hospital. Mas até quando o Estado vai esperar?
Enquanto os gestores discutem burocracias, a população sofre. O Walfredo é referência estadual e recebe pacientes de todas as regiões do Rio Grande do Norte. Cada dia de atraso na substituição dos tomógrafos representa diagnósticos suspensos, cirurgias adiadas e vidas em risco. Não há planejamento que justifique a repetição desse cenário mês após mês.
A proposta do deputado deveria, ao menos, ser considerada com seriedade. É uma alternativa concreta diante de um problema que se repete há anos. Se o governo não tiver disposição para redirecionar recursos, que apresente imediatamente outra solução de igual urgência — mas que resolva.
A crise dos tomógrafos do Walfredo Gurgel é um sintoma do subfinanciamento crônico (este jornal já tratou disso em editorial anterior), mas também da normalização de absurdos. Esta é uma oportunidade de o governo demonstrar que está disposto a agir, e não apenas a lamentar. O mínimo que se espera é ação imediata — e respeito ao cidadão potiguar, que não aguenta mais ver o colapso se tornar rotina.