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Levantamento

Pesquisa aponta impacto da alta dos alimentos na popularidade de Lula às vésperas das eleições

Levantamento aponta piora na percepção econômica e aumento do endividamento às vésperas das eleições
Por O Correio de Hoje
16/04/2026 | 15:11

A menos de seis meses das eleições de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta dificuldades para reverter a queda em seus índices de popularidade. É o que indica a mais recente pesquisa Genial/Quaest, realizada entre os dias 9 e 13 de abril e divulgada nesta quarta-feira 15. O levantamento aponta que a avaliação negativa da economia, impulsionada pela alta no preço dos alimentos, vem ganhando força entre os brasileiros e influenciando o humor do eleitorado.

De acordo com a pesquisa, o percentual de entrevistados que perceberam aumento nos preços dos alimentos saltou de 58%, em março, para 72% em abril. Além disso, metade dos brasileiros acredita que a economia do país piorou nos últimos 12 meses. O endividamento das famílias também preocupa: 72% afirmam possuir poucas ou muitas dívidas, ante 65% registrados em maio de 2025.

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Com adversidade na economia, vantagem de Lula sobre adversários diminuiu - Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil

Para o diretor da Quaest, Felipe Nunes, o cenário atual é desfavorável ao governo. “O ambiente não parece favorável ao governo neste momento. A percepção do eleitorado é que o noticiário continua mais negativo (48%) do que positivo (23%). A percepção da população é que a economia está piorando”, afirma, em entrevista ao jornal O Globo. Ele acrescenta que “o principal motor da piora parece ser o preço dos alimentos nos mercados”.

O levantamento ouviu 2.004 eleitores e indica que a pressão econômica contribui para a deterioração da popularidade presidencial observada nos últimos meses. Desde o início do ano, a desaprovação ao governo federal passou de 49% para 52%, atingindo o maior patamar desde julho do ano passado. Já a aprovação recuou de 47% para 43%.

No campo eleitoral, a vantagem de Lula sobre adversários também diminuiu. Em simulações de segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) apareceu numericamente à frente do presidente, embora ambos estejam tecnicamente empatados dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

A cientista política Carolina Botelho, do INCT/SANI, destaca a relevância do cenário econômico nas disputas eleitorais. “A economia não é suficientemente capaz de prever sucesso ou fracasso eleitoral, mas tem importância na análise. A questão do IPCA é um exemplo. Uma vez que o brasileiro sente mais o bolso, a tendência é que, nesse cenário de polarização, a economia pode fazer diferença para o grupo de indecisos”, avalia.

Na mesma linha, o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que a carestia representa um obstáculo significativo para qualquer gestão. “A carestia é uma das piores notícias possíveis para qualquer governo em ano eleitoral. Deteriora a imagem do governo e afeta diretamente o humor do eleitor. E eleição, no fim das contas, é decidida muito mais pelo bolso do que pelo discurso do governo ou por indicadores macroeconômicos”, ressalta.

Os indicadores econômicos corroboram a percepção popular. Segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a alimentação no domicílio subiu 1,94% em março, resultado bem superior aos 0,23% registrados em fevereiro e o maior desde abril de 2022, quando o índice atingiu 2,59%. Entre os principais aumentos estão itens essenciais do cotidiano, como tomate, cebola, batata-inglesa, leite longa vida e carnes.

Especialistas apontam que o conflito no Oriente Médio contribuiu para a elevação dos custos logísticos e energéticos, sobretudo após o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, o que elevou as cotações internacionais do petróleo. O encarecimento dos combustíveis impacta diretamente o transporte rodoviário, pressionando os preços dos alimentos e de outros produtos. O custo dos fertilizantes também foi afetado, refletindo-se na produção agrícola.

O economista sênior da Logos Economia, Fábio Romão, alerta para novas pressões. “Vêm problemas pela frente na precificação dos alimentos, não só pela questão do frete, mas, mais adiante, via fertilizantes. No segundo semestre, ainda tem o El Niño. Então, há novas pressões de alimentos na agenda”, observa.

O economista-chefe do banco BMG, Flávio Serrano, explica que o impacto dos fertilizantes tende a se refletir nas próximas safras. “Quando estivermos olhando o plantio da segunda parte da safra deste ano, a questão do aumento dos fertilizantes vai aparecer. Porque o que está sendo vendido agora já estava plantado”, afirma.

Apostas eleitorais

Diante do cenário, o Palácio do Planalto aposta em iniciativas para melhorar os indicadores e recuperar apoio popular. Entre as medidas estão ações para reduzir o endividamento das famílias, a ampliação de programas habitacionais, a criação de novas linhas de crédito para motoristas e caminhoneiros e esforços para diminuir a fila do INSS.

Outra estratégia é ampliar a visibilidade do programa Desenrola Brasil. Embora 46% dos entrevistados aprovem a iniciativa e 70% defendam investimentos em ações semelhantes, 45% dos brasileiros ainda afirmam desconhecer o programa.

A pesquisa também aponta mudanças no perfil do endividamento. A parcela de brasileiros sem dívidas recuou de 34% para 28%, enquanto aqueles que afirmam ter poucas dívidas aumentaram de 33% para 43%. Já os que declaram possuir muitas dívidas passaram de 32% para 29%.

No campo tributário, permanece estável a percepção sobre a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, sancionada em novembro. Atualmente, 31% dos entrevistados afirmam ter sido beneficiados pela medida, embora metade deles não perceba impacto direto na renda.