Uma mentira aparentemente simples dá início a uma crise profunda no protagonista de Meu pai mentiu pra mim, livro do escritor e psicanalista Daniel Lirio. Aos 12 anos, Tomás tem sua percepção de mundo abalada ao flagrar o pai comendo um doce escondido, após afirmar que não havia sobremesa. O episódio desperta uma dúvida central: se o pai pode mentir sobre algo pequeno, o que mais pode não ser verdade?
A partir desse momento, o garoto passa a questionar as pessoas ao seu redor e a forma como entende a realidade. Ao longo de um dia na escola, ele vivencia situações que ampliam esse conflito, em conversas com colegas, professores e outros adultos. Cada interação apresenta uma visão distinta sobre a mentira, incluindo justificativas, críticas e até interpretações que apontam para o papel da imaginação na construção do real.

O livro articula essas reflexões com referências históricas, científicas e culturais que surgem como personagens na trajetória de Tomás. Figuras como Ulisses, Marie Curie, Albert Einstein e Sigmund Freud aparecem como interlocutores simbólicos, oferecendo diferentes caminhos de compreensão. Ao mesmo tempo, nomes como Gregor Samsa, de Franz Kafka, e Clarice Lispector aproximam o protagonista de questões subjetivas, enquanto pensadores como Jean Baudrillard, Frantz Fanon e Milton Santos ampliam o debate para dimensões sociais e coletivas.
“Depois da mentira do pai, o mundo estava esquisito. Tomás passou a ficar desconfiado, inseguro, até com medo da vida. Sem aquela confiança cega nos adultos, o jeito era apostar na sua capacidade de pensar, conversar com as pessoas e ouvir diferentes opiniões. Podia aprender com os outros, mas queria tirar suas conclusões e inventar seu jeito próprio de compreender o mundo.” (Meu pai mentiu pra mim, p. 57)
Ao longo da narrativa, conteúdos escolares como ciência, história, cultura e arte deixam de ser apenas disciplinas e passam a funcionar como metáforas das inquietações do protagonista. A história questiona se é possível alcançar uma verdade absoluta e até que ponto a imaginação também participa da construção do que se entende como real.
Mestre em Psicologia Social pela USP, Daniel Lirio constrói uma narrativa acessível, baseada em diálogos e reflexões que aproximam o leitor do universo de Tomás. A obra aborda temas como confiança, ética e percepção, ao mesmo tempo em que estimula o pensamento crítico. “O drama do protagonista é como se abrir para novas formas de pensar o mundo sem rejeitar completamente o referencial tradicional que o constitui.