BUSCAR
BUSCAR
Entretenimento

Série ‘Cangaço Novo’ retorna ao sertão

Evento celebrou segunda temporada da série e destacou impacto cultural e econômico na cidade paraibana
Por Nathallya Macedo, O Correio de Hoje
16/04/2026 | 13:18

A pequena Cabaceiras — conhecida como a “Roliúde Nordestina” — virou palco e plateia de si mesma nesta quarta-feira 15. Com pouco mais de 5 mil habitantes, a cidade do Cariri paraibano recebeu uma pré-estreia ao ar livre da segunda temporada de Cangaço Novo, reunindo cerca de 3 mil pessoas para assistir, em primeira mão, aos dois primeiros episódios da série que estreia em 24 de abril no Prime Video.

O evento, aberto ao público, reuniu nomes centrais da produção, como Alice Carvalho, Allan Souza Lima, Thainá Duarte, Xamã, Marcélia Cartaxo e Hermila Guedes, além dos diretores Fábio Mendonça e Caito Ortiz e dos criadores e roteiristas Mariana Bardan e Eduardo Melo. Mais que uma exibição, a noite funcionou como celebração de um vínculo raro entre produção e território: uma feira gastronômica operada por comerciantes locais reforçou o impacto econômico direto da série na cidade que serviu de cenário para as duas temporadas.

serie cangaco
Segunda temporada de Cangaço Novo aprofunda a disputa de poder entre personagens - Foto: Divulgação

Se a primeira leva de episódios apresentou o universo de Cratará, a nova temporada mergulha em um terreno mais tenso. Ubaldo, Dinorah e Dilvânia enfrentam desafios ainda mais perigosos na guerra contra os Maleiros. Enquanto Dilvânia assume a liderança espiritual da Irmandade, Ubaldo e Dinorah partem para o confronto direto contra Gastão Maleiro e Paulino Leite, numa tentativa de frear a engrenagem de corrupção e violência que sustenta o poder local.

No centro dessa narrativa está Dinorah, vivida pela potiguar Alice Carvalho, cuja presença em cena impõe uma inversão silenciosa: é a câmera que se ajusta a ela. A personagem carrega a marca de quem nunca deixou o sertão — e, por isso, vive suas durezas sem mediação.

“Dinorah é uma personagem de grande profundidade, que exige um equilíbrio físico e mental intenso e cuidadoso. É uma mulher potente, que deixa de lado toda e qualquer vaidade. Durante os meses de preparação e filmagem, participei de aulas de equitação, levantamento de peso olímpico (LPO), tiro, muay thai, jiu-jitsu e treinamento de direção de precisão para motocicletas e carros. Vivenciei uma experiência transformadora e única nesse processo, ficando longe de casa por 8 meses e me entregando por inteira nesse projeto que me transformou enquanto atriz e pessoa. Eu com certeza não sou a mesma Alice depois de Dinorah”, disse Alice, em entrevista recente.

Ao lado dela, o personagem Ubaldo surge como o oposto complementar: o homem que saiu do Nordeste sem escolha e retorna para confrontar sua própria origem. Juntos, eles sintetizam o eixo central da série — herança, não apenas de bens, mas de identidades.

Essa construção dialoga com uma tradição do cinema brasileiro que revisita o sertão como espaço político e simbólico. Há ecos de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, mas “Cangaço Novo” se ancora no presente ao abraçar o chamado nordestern — uma releitura do faroeste que troca o deserto americano pela caatinga e insere questões contemporâneas como crime organizado, desigualdade e poder político.

O elenco majoritariamente nordestino reforça essa autenticidade. Nomes como Ênio Cavalcante, Joálisson Cunha e Lucas Veloso contribuem para uma narrativa que preserva sotaques, gírias e modos de vida. A série não simplifica seu tema central — a linha tênue entre sobrevivência e criminalidade —, preferindo investigá-lo. É uma história que incomoda, tensiona e, por vezes, faz o espectador se ver torcendo por personagens violentos. É sempre política, até quando é guerra.

Para Alice Carvalho, a dimensão cultural do projeto vai além da ficção. “Trazer a atmosfera única do Nordeste, com sua rica cultura e paisagens, para as telas de diversos países é uma experiência emocionante e gratificante. Foram 8 meses de gravação intensa e eu repetiria tudo de novo quantas vezes fossem necessárias. Aquela terra tem uma riqueza cultural e uma beleza que merecem ser compartilhadas com o mundo, e ter a oportunidade de participar dessa obra que tem o Nordeste como cenário é um privilégio imenso.”

Filmada entre o interior do Rio Grande do Norte — em cidades como Parelhas e Carnaúba dos Dantas — e a própria Cabaceiras, a série amplia também a presença potiguar no audiovisual nacional. “É bom demais ver talentos locais sendo reconhecidos e tendo a oportunidade de contribuir para projetos de alcance nacional e internacional. Essa representatividade não apenas fortalece a indústria criativa local, mas também contribui para uma narrativa mais autêntica e diversificada”, afirma a atriz.

Com participação especial do cantor João Gomes e produção assinada por O2 Filmes e Amblin Entertainment, “Cangaço Novo” retorna agora mais ambiciosa — tanto em escala quanto em densidade dramática. Ao estrear sua segunda temporada no próximo dia 24, a série reafirma um movimento: o sertão, mais uma vez, deixa de ser cenário para se tornar protagonista de histórias que falam, com cada vez mais nitidez, sobre o Brasil contemporâneo.