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Tecnologia

Uso de inteligência artificial já alcança 41,9% do agro no Brasil, aponta FGV

Adoção acelerada amplia eficiência no campo, mas esbarra em limitações de conectividade e mão de obra qualificada
Por O Correio de Hoje
17/03/2026 | 08:49

A inteligência artificial (IA) já integra a rotina de 41,9% das fazendas e agroindústrias no Brasil, segundo estimativa do professor Oscar Burd, da Fundação Getulio Vargas (FGV). O índice representa um avanço expressivo em relação a 2022, quando estava em 16,9%. O levantamento foi elaborado a partir do cruzamento de dados do IBGE (Pintec Semestral 2024), Sebrae, Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi) e consultorias especializadas em agtechs.

Segundo Burd, a velocidade de disseminação da tecnologia no campo supera ciclos anteriores de inovação. “A velocidade surpreende. Enquanto tecnologias anteriores, como o GPS, levaram décadas para se massificar, a IA saltou de uma curiosidade experimental para uma ferramenta de core business em menos de cinco anos”, afirma. Ele destaca que a tecnologia deixou de ser restrita a grandes grupos e passou a alcançar pequenos e médios produtores por meio de aplicativos, plataformas e soluções embarcadas.

equipamentos captam os dados processados por ia foto divulgacao
Fazendas e agroindústrias - Foto: divulgação

A digitalização das atividades rurais ampliou a geração de dados, que são processados por sistemas de IA para orientar decisões produtivas. Entre as aplicações estão o monitoramento de lavouras, a gestão de rebanhos e o planejamento financeiro. Na SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do país, a tecnologia vem sendo incorporada desde 2017. “Apenas um trator pode gerar um milhão de dados por dia. Mas, além deles, temos dados de sensores, satélites, drones e outros milhares de equipamentos”, diz o diretor de Tecnologia da companhia, Rafael Rosa.

No campo, os ganhos incluem identificação de pragas e doenças por imagem em tempo real, previsão de estresse hídrico e diagnóstico de carências nutricionais das plantas. Na pecuária, a tecnologia também começa a transformar processos. O produtor Tasso Jayme, que cria 2,5 mil cabeças de gado em Goianésia (GO) e cultiva 4 mil hectares de soja e cana, passou a utilizar drones com visão computacional para otimizar o plantio de pastagens. “Com IA, conseguimos localizar as áreas ideais para lançar as sementes sobre as áreas de soja. Assim, o pasto vai aproveitar a adubação”, afirma.

Para o pecuarista, a adoção tende a se tornar condição para competitividade no setor. “Estou na pecuária há 50 anos, desde a adolescência. Antes era minha principal atividade, mas há alguns anos ficou complicado. As novas tecnologias podem trazer de volta os bons tempos”, diz. Ele avalia que produtores que não incorporarem ferramentas digitais podem perder espaço no mercado.

Apesar do avanço, a disseminação da IA no agro ainda enfrenta entraves estruturais. A conectividade é um dos principais gargalos: a cobertura 4G e 5G em áreas rurais alcançou 43,8% em 2024, segundo a ConectarAgro, deixando mais da metade das propriedades dependentes de soluções offline ou conexões via satélite. “A tecnologia pode ser sofisticada, mas sem conectividade ela simplesmente não chega ao campo”, afirma Burd.

Outro desafio apontado é a escassez de profissionais qualificados para interpretar os dados gerados pelos sistemas. A limitação de mão de obra especializada tende a restringir o pleno aproveitamento das ferramentas, mesmo em propriedades que já adotaram a tecnologia.