BUSCAR
BUSCAR
Análise
Coronavírus: 10% dos mortos no Brasil têm menos de 60 anos
Taxa é maior do que na China, apesar de a letalidade ser comprovadamente maior entre idosos
O Globo
01/04/2020 | 11:05

O Brasil ainda não possui um estudo epidemiológico detalhado para ilustrar o perfil da Covid-19, mas dados preliminares indicam que a porcentagem de jovens e adultos mortos no país é maior do que na China, apesar de a letalidade ser comprovadamente maior entre idosos.A Secretaria Estadual da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap) e a Secretaria Municipal de Saúde de Natal confirmaram na noite desta terça (31) a morte do gastrólogo Matheus Aciole, de 23 anos. Ele é o mais jovem a ter morte pela Covid-19 confirmada no país.

Segundo informe de ontem à noite do Ministério da Saúde, 20 de um total de 201 (10%) mortes causadas pelo novo coronavírus até agora não ocorreram em idosos, mas sim em pacientes abaixo dos 60 anos. Sete deles (4%) tinham menos de 40 anos de idade. Entre os pacientes chineses, a parcela de óbitos não foi tão grande entre os menores de 60 anos (6%) e de 40 anos (3%).

Ainda não se sabe se essa diferença se deve a alguma falha na notificação de todos os casos, e o governo brasileiro diz esperar que a doença se comporte como se viu em outros países.

— Entre os jovens, teremos casos assimétricos, casos que precisarão de internação, mas o número de óbitos é baixo. Estatisticamente, a gente acha que vai seguir o que se viu na China, na Itália, em outros lugares — afirmou ontem o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Há médicos que não estão tão tranquilos com relação à população jovem. O diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Marcos Cyrillo, afirma que, embora entre os 12 e os 45 anos as pessoas estejam no auge da sua imunidade, “há muitas variáveis” no recorte etário da doença.

— Várias condições interferem para o desfecho, como carga viral, hábitos de vida. O jovem pode não ter doenças de base, mas ter comportamento de risco, envolvendo cigarro, bebida e má alimentação — diz o infectologista.

— Não nos contaram tudo sobre esse vírus — afirmou ontem à TV Globo o secretário estadual de Saúde do Rio, Edmar Santos. — A segunda faixa que mais se interna é a de 30 a 39 anos.

Entre os casos que acenderam o alerta em jovens está o de uma mulher de 32 anos que morreu ontem no Rio de Janeiro. Na segunda-feira, um homem de 43 anos morreu no Amazonas.

Imunidade

As pessoas acima dos 60 anos ainda são o grupo de maior risco para óbito, pois nessa faixa etária o sistema imunológico perde o vigor para combater infecções.

— Porém, indivíduos de todas as idades podem ficar doentes, ter formas graves da infecção pelo novo coronavírus e serem hospitalizadas, com possibilidade de morrerem — diz Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia em São Paulo.

A evolução das infecções entre jovens tem mostrado que grande parte vai passar sem sintomas graves. Mas, pela alta exposição de pessoas nessa faixa etária, explicam especialistas, não será tão raro que algumas tenham complicações graves.

— Temos hoje jovens extremamente estressados do ponto de vista pessoal, profissional, sem alimentação adequada. E esses fatores também impactam no sistema imune quando nos deparamos com um vírus que desencadeia um quadro inflamatório absurdo nos pacientes — afirma a infectologista Rosana Richtmann, do Hospital Emílio Ribas.

Em São Paulo, o grupo de pessoas entre 20 e 59 anos representa cerca de 70% dos casos confirmados de infecção. E cerca de 40% do total é de jovens entre 20 e 39 anos. A porcentagem cai quando observada a letalidade. Doze de 136 mortes no estado foram de menores de 60 anos — cinco óbitos foram de menores de 40 anos.

Nem sempre o agravamento do quadro da Covid-19 entre jovens está ligado a doenças de base.

— Não é necessariamente o jovem com asma, ou com diabete, mas o estilo de vida pesa — afirma a infectologista. — Além do estresse e da alimentação, tabagismo também é fator de risco, agride o epitélio respiratório.

Segundo Richtmann, os dados não devem trazer pânico, mas um alerta: jovens também devem ficar em casa, quando puderem, para que os que não podem possam trabalhar com segurança, como profissionais de saúde, transporte e abastecimento.

— Ninguém é imune a esse vírus, é um vírus novo. Ainda estamos aprendendo o comportamento dele.

Mesmo nos casos em que não causa a morte, estudos preliminares têm demonstrado que o coronavírus pode deixar danos de longo prazo, inclusive entre os jovens, diz Weissmann:

— Há indícios de que a infecção pelo novo coronavírus possa causar sequelas no pulmão, no coração e nos rins.

Entre os mais surpresos com o impacto da Covid-19 entre jovens adultos estão os próprios infectados. Um deles foi Tiago Porto, de 26 anos. Ele diz não ter ficado preocupado com o diagnóstico, até o dia em que teve a sensação que não conseguia encher o pulmão de ar. Felizmente, não desenvolveu pneumonia e agora está recuperado, mas hoje avalia que teve sorte:

— Temos visto notícias de jovens que estão tendo complicações. Talvez eu tenha ficado tranquilo demais perto do que poderia ter sido.

Pedro Pacífico, de 27 anos, sentiu na pele que o novo coronavírus não é como um vírus de resfriado qualquer.

— Tive sintomas bem leves no início, mas eles deram uma piorada. Não cheguei a ficar internado, mas não é só uma gripe. Nunca tive uma gripe assim, que tenha durado tanto tempo e tenha me abatido tanto.

Sede: Av. Hermes da Fonseca, 384 – Petropolis – Natal – RN – Cep. 59020-000
Telefone: (84) 3027-1690 / 3027-4415
Redação: (84) 98117-5384 - [email protected]
Comercial: (84) 98117-1718 - [email protected]
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.