A democracia, tão celebrada como a grande conquista civilizatória do século XX, atravessa hoje uma crise que não vem apenas de ataques explícitos de líderes autoritários ou de rupturas institucionais. O problema é mais profundo: a incapacidade das democracias de entregar resultados concretos para a sociedade. Esse descontentamento nasce da soma de promessas descumpridas, frustrações repetidas e de um cotidiano sem mudanças reais que favorece a criação de um terreno fértil para o avanço do extremismo em todo o mundo.
Foi nesse sentido que o presidente Lula, em discurso na ONU, fez um alerta incômodo: a esquerda precisa reconhecer erros que permitiram a ascensão da direita radical. Mas a mensagem, lida em chave mais ampla, vai além da disputa ideológica. O problema não é apenas de convencimento ou de narrativa.

O verdadeiro nó está na falta de entregas. A população já não se contenta com discursos inflamados, slogans marqueteiros ou símbolos partidários: espera soluções concretas. Um bom exemplo atual pode ter vindo das ruas com manifestações de domingo passado contra a “PEC da Blindagem”. A força do povo provocou reações políticas.
Ao longo de décadas, partidos de diferentes espectros prometeram reformas estruturais, combate à desigualdade, estabilidade econômica e segurança pública. No entanto, a cada ciclo eleitoral, a sensação de déjà-vu se repete: trocam-se governos, trocam-se rótulos, mas os problemas permanecem. Essa alternância sem transformação gera descrença, apatia e raiva social. É nessa brecha que discursos simplistas prosperam, oferecendo inimigos em comum e respostas rápidas para problemas complexos.
Mas a crise não é apenas institucional. Ela também é subjetiva. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve como o indivíduo contemporâneo vive sob a pressão constante de desempenho, sentindo-se insuficiente, exausto e desamparado. Essa fadiga social transborda para a política: uma população cansada e descrente não encontra energia para se engajar coletivamente. O desinteresse se instala, e nesse silêncio ganha força quem promete atalhos perigosos.
A democracia não sobrevive apenas de ritos eleitorais. Votar é necessário, mas não é suficiente. Democracias vigorosas exigem participação, resultados e capacidade de renovação. Quando o sistema falha em entregar, o desgaste social se transforma em combustível para os aventureiros de ocasião. O que hoje aparece como fadiga pode amanhã se consolidar como desistência do próprio regime.
O risco maior, portanto, não está apenas no barulho do extremismo, mas no silêncio da sociedade cansada, que já não acredita em nada e nem em ninguém. Sem autocrítica e sem entregas reais, a política continuará alimentando o vazio onde florescem os falsos salvadores. O desafio não é falar mais alto. É entregar melhor!