A entrevista de Steven Levitsky ao programa Roda Viva lança luz sobre um cenário mundial marcado pela ascensão do medo como ferramenta de poder.
A política externa de Donald Trump, em especial sua ofensiva tarifária, representa mais que uma disputa comercial: trata-se da construção de muros invisíveis que isolam nações, corroem o multilateralismo e fragilizam instituições globais. Se no passado a retórica americana apostava no chamado soft power, Trump encarna o retorno do hard power, uma estratégia dura que reedita velhas práticas de imposição.

Ao taxar parceiros e ameaçar mercados, Trump não busca apenas ganhos imediatos. Sua tática remete diretamente a uma lição maquiavélica: dividir para conquistar. O inimigo, neste caso, é o mundo globalizado, integrado por acordos multilaterais e por redes institucionais que, quando unidas, limitam a força bruta de qualquer império. Para enfraquecer esse inimigo, Trump aposta na fragmentação, estimulando o medo e a insegurança. É o jogo de criar muros – visíveis como fronteiras ou invisíveis como tarifas – para manter nações reféns de uma ordem que serve primordialmente aos interesses norte-americanos.
Levitsky, ao analisar a saúde da democracia no Brasil e no continente, sugere que a resistência a esse tipo de ataque exige coesão. Para ele, a democracia brasileira se encontra firme e forte, mesmo diante de pressões internas e externas. Esse dado é fundamental: democracias sólidas conseguem enfrentar melhor as investidas autoritárias e resistir a lideranças que apostam no medo. A América do Sul, historicamente tratada como “quintal” pelos EUA, volta a enfrentar pressões que lembram os anos mais duros da ingerência estrangeira. O “tarifaço” contra produtos brasileiros e latino-americanos sinaliza a tentativa de rebaixar a região a uma posição subordinada, dependente e fragilizada.
No entanto, há um ponto de virada. A última pesquisa Quaest mostrou que o presidente Lula conseguiu recuperar parte da confiança popular justamente ao assumir a bandeira da soberania frente ao embate tarifário. A postura de defesa nacional fortalece sua narrativa e evidencia que, quando os países da região atuam com firmeza e diálogo, conseguem neutralizar parte da pressão externa. O desafio, contudo, é transformar essa reação pontual em uma estratégia consistente de integração continental.
Dentro do Brasil, a oposição busca reverter essa maré. A iminente CPMI do INSS tende a ser instrumentalizada para desgastar o governo, mesmo que a própria oposição esteja fragilizada após a exposição da sintonia entre Eduardo Bolsonaro e a política de Trump. O risco é que, enquanto o debate interno se enrosca em disputas políticas, a pressão externa avance.
O recado de Levitsky é claro: a democracia brasileira está de pé, e esse é o maior ativo para resistir ao muro de medo erguido por Trump. Para que a América do Sul não volte a ser refém, é preciso abandonar a lógica de quintal e apostar em união e soberania. Somente assim será possível transformar o ataque em oportunidade de reafirmação.