É vergonhosa a postura de Flávio Bolsonaro após perder a eleição presidencial. Superado nas urnas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador preferiu criar ainda mais instabilidade política em vez de reconhecer o resultado e começar a organizar a oposição para o próximo ciclo eleitoral.
Tinha condições de fazê-lo com autoridade. Recebeu 59,8 milhões de votos, equivalentes a 48,21% dos válidos, e emergiu da disputa com um capital político expressivo. Poderia representar milhões de brasileiros insatisfeitos com o governo, fiscalizar a administração federal e construir um projeto competitivo para 2030. Escolheu, porém, sair pela porta dos fundos, fugindo do país e deixando seus próprios aliados diante de uma situação constrangedora.

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Sua fuga para os Estados Unidos, e ainda mais nas circunstâncias como ocorreu, é uma decisão lamentável para quem acabou de disputar a Presidência da República e recebeu tamanha demonstração de confiança dos eleitores.
O episódio ganhou contornos ainda mais graves com as informações divulgadas pelo jornal americano The New York Times. Segundo a publicação, o jato utilizado pelo senador e sua família foi providenciado por Jason Miller, integrante da área de comunicação da Casa Branca, após contatos com Eduardo Bolsonaro. A operação teria contado, portanto, com auxílio de pessoas ligadas ao governo de Donald Trump. É especialmente preocupante que um candidato derrotado busque apoio político e logístico estrangeiro para abandonar seu país enquanto contesta a legitimidade das instituições brasileiras.
Para piorar, veio a carta divulgada depois da chegada aos Estados Unidos. Em sua primeira versão, Flávio teve o delírio de apresentar-se como o verdadeiro “presidente eleito” do Brasil. O documento recorreu até ao brasão dos “Estados Unidos do Brazil”, nome que o País não usa desde 1931.
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A carta também levantou suspeitas completamente infundadas sobre a eleição. Não foram apresentadas provas nem elementos concretos que indiquem fraude nas urnas. O próprio coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), reconheceu essa realidade. “O PL não pode fazer essa afirmação, nem eu posso fazer essa afirmação, porque não há provas nesse sentido”, declarou.
Flávio procura sustentar sua contestação na decisão do ministro Cristiano Zanin de prorrogar o horário de votação até as 19h. É legítimo discutir os fundamentos, a oportunidade e a execução da medida. Decisões judiciais estão sujeitas a críticas, inclusive quando envolvem o processo eleitoral. Entretanto, discordar de uma decisão não autoriza concluir que houve fraude. Os números divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral são esclarecedores: apenas 34.393 votos foram registrados depois das 17h em todo o país, diante de uma diferença superior a 4,4 milhões de votos entre Lula e Flávio. Mesmo que todos esses votos fossem desconsiderados, o resultado permaneceria exatamente o mesmo.
Há outro aspecto fundamental. A legislação eleitoral já assegura o direito de votar a quem estiver na fila no horário previsto para o encerramento. Portanto, parte dos 34.393 eleitores registrados após as 17h teria votado independentemente da prorrogação. Levantamento baseado nos registros das urnas indicou que a maior parcela desses votos foi computada nos primeiros minutos após o horário habitual de fechamento.
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A atitude de Flávio também prejudica diretamente a oposição que ele afirma pretender liderar do exterior. O primeiro afetado é Rogério Marinho, citado nominalmente na carta no momento em que procura construir consensos para disputar a Presidência do Senado. O parlamentar potiguar precisa negociar com diferentes partidos e ampliar sua capacidade de diálogo para enfrentar Davi Alcolumbre (União-AP). A associação a uma contestação eleitoral sem provas dificulta essas articulações.
A postura de Flávio tornou-se politicamente radioativa, impondo aos aliados o desgaste de explicar declarações que eles próprios não conseguem sustentar.
Não por acaso, mais de 20 partidos já reconheceram publicamente a vitória de Lula, incluindo legendas que apoiaram Flávio durante a campanha e até o próprio PL. O reconhecimento do resultado eleitoral não significa adesão ao governo eleito. Significa respeito à vontade expressa nas urnas e às regras que permitem a alternância de poder. Uma oposição responsável pode questionar políticas públicas, investigar irregularidades, combater propostas governamentais e apresentar alternativas sem colocar em dúvida, gratuitamente, a legitimidade da eleição.
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Flávio Bolsonaro poderia ter transformado seus quase 60 milhões de votos em uma base sólida de oposição democrática. Preferiu fugir, autoproclamar-se vencedor e alimentar suspeitas desprovidas de comprovação. Com isso, compromete a própria credibilidade e dificulta o trabalho dos parlamentares que receberam dos eleitores a responsabilidade de representar uma parcela expressiva do país.
A derrota eleitoral não exigia submissão ao governo Lula, mas maturidade política para reconhecer o resultado. É lamentável que, diante dessa escolha, o senador tenha preferido o caminho que mais prejudica seus aliados, seus eleitores e a estabilidade democrática brasileira.