Pela primeira vez uma urna eletrônica funcionou dentro de uma unidade prisional no Rio Grande do Norte, e o resultado que saiu dela põe o Partido dos Trabalhadores na frente nos três cargos majoritários. Cadu de Lula, Samanda de Lula e Luiz Inácio Lula da Silva foram os mais votados para governador, senadora e presidente na seção montada no CDP Feminino — o Centro de Detenção Provisória que fica no bairro Potengi, na Zona Norte de Natal.
Os números constam dos registros oficiais que a Justiça Eleitoral divulgou depois de encerrada a apuração. O boletim da seção 642, que é ligada à 1ª Zona Eleitoral, anotou 36 votos para Lula, 17 para Cadu e 16 para Samanda na votação de domingo 4.

Na disputa pelo Governo do Estado, esses 17 votos equivalem a 47,22% dos 36 válidos ali apurados. Em segundo lugar na seção ficou Álvaro Dias (PL), com 11 votos, e Allyson Bezerra (União) teve seis. Rodrigo de Bolsonaro (Agir) e Professor Robério Paulino (Psol) receberam um cada. Houve ainda seis votos em branco e dois nulos, o que fecha um total de 44 votos para o cargo.
Em todo o estado, Cadu somou 718.300 votos, ou 36,16% dos válidos. Ele enfrenta Allyson no segundo turno, dia 25 de outubro; o adversário fechou a primeira rodada com 733.809 votos, equivalentes a 36,94%.
Para presidente, a vantagem dentro do CDP foi bem maior: os 36 votos de Lula correspondem a 83,72% dos 43 válidos da seção. Seis eleitoras escolheram Flávio Bolsonaro (PL), que é o adversário dele no segundo turno, e uma votou no escritor Augusto Cury (Avante). Foram três votos em branco e nenhum nulo, num total de 46 votos apurados para a Presidência. No país inteiro, Lula teve 53,8 milhões de votos, equivalentes a 45,16% dos válidos, contra 56,1 milhões de Flávio, que marcou 47,03%.
Senado, Câmara e Assembleia
No Senado, a liderança também ficou com uma candidata do PT: foram 16 votos para Samanda de Lula. Rafael Motta (PDT) veio em seguida, com sete, e Styvenson Valentim (Podemos) somou seis. Depois aparecem, com cinco votos cada, Sonia Godeiro (Psol) e Coronel Hélio (PL). Tércio Tinoco (União) e Zenaide Maia (PSD) ficaram com quatro cada. E com dois votos cada encerram a lista Professor Guilherme (UP), Sandro Pimentel (Psol) e Rosália Fernandes (PSTU).
Como cada eleitora podia escolher dois nomes para o Senado, o boletim contabilizou 88 votos no cargo — 53 nominais, 18 em branco e 17 nulos. O documento traz a soma das duas escolhas e não permite saber quais candidatos foram votados juntos por cada eleitora. Na eleição estadual, o Rio Grande do Norte elegeu Samanda de Lula e Styvenson Valentim.
Para deputado federal, quem mais recebeu votos na seção foi Mineiro (PT), com 12. Thabatta Pimenta (PV) veio depois, com três. Em seguida, com dois votos cada, Erminio Felix (PSB), Sargento Gonçalves (PL) e Natália Bonavides (PT). O cargo fechou com 30 votos nominais, mais cinco de legenda, cinco em branco e quatro nulos.
Na disputa pela Assembleia Legislativa, quem liderou foi Pedro Lopes (PT), com cinco votos. Eriko Jácome (PSDB) e Dr. Antônio Jácome (MDB) ficaram com quatro cada; Luiz Eduardo (PL), Francisco do PT e Juliana Garcia (PT), com três cada. A votação para deputado estadual terminou com 33 votos nominais, mais dois de legenda, sete brancos e dois nulos.
A seção, vinculada à 1ª Zona Eleitoral de Natal, tinha 63 eleitoras habilitadas por transferência temporária, e o comparecimento ficou em 46 pessoas. Vale lembrar que uma seção instalada em presídio também pode receber o voto de policiais penais e de outros servidores que trabalham na unidade.
O CDP Feminino fica na avenida Itapetinga e abriga 148 mulheres. Pelos dados do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RN), 59 internas estavam aptas a votar ali. Dessas, 17 receberam alvará de soltura antes do pleito e voltaram às seções de origem.
Como a seção foi instalada
Montar a urna ali exigiu a entrada de três instituições: a Justiça Eleitoral, o Tribunal de Justiça e a Seap, Secretaria de Estado da Administração Penitenciária. Para o TRE-RN, a experiência serve também de teste, para que a votação chegue depois a outras unidades do sistema. A preparação vem de 2025, quando começaram as ações de identificação, de emissão de documento e de regularização eleitoral de quem está privado de liberdade. Quem organizou foi um grupo interinstitucional, sob coordenação do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário no Tribunal de Justiça, alinhado às diretrizes do Plano Pena Justa.
No Brasil, quem está preso provisoriamente, isto é, sem condenação criminal definitiva, mantém o direito de votar, desde que esteja eleitoralmente habilitado para isso. A suspensão dos direitos políticos só alcança quem tem condenação transitada em julgado, sem possibilidade de recurso.
Para instalar uma seção dentro de um presídio, no entanto, são necessárias pelo menos 20 pessoas em situação eleitoral regular, além de haver garantias de segurança para o funcionamento das urnas. Em 2026, segundo o TRE, foi a primeira vez que as duas condições se juntaram no estado.
Neste ano o TSE decidiu ainda que as restrições trazidas pela Lei nº 15.358/2026 — a Lei Raul Jungmann, também chamada de Lei Antifacção — não valem para a eleição de outubro. A Corte entendeu que alteração no Código Eleitoral precisa respeitar o princípio da anualidade, que impede mudança no processo eleitoral a menos de um ano da votação. Com isso, seguem valendo neste ano o alistamento e a instalação de seção prisional para quem está preso provisoriamente.