Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegam ao segundo turno da eleição presidencial com diferenças na condução da economia, mas também com uma questão em comum: parte das medidas apresentadas pelas duas campanhas ainda não detalha como as metas serão alcançadas. O quadro fiscal está no centro das discussões, diante do avanço da dívida pública e da cobrança de investidores por medidas capazes de estabilizar as contas do governo.
A campanha de Flávio propõe um ajuste fiscal equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma nova regra para limitar despesas, associada à trajetória da dívida em relação ao PIB. O programa registrado na Justiça Eleitoral também prevê buscar superávits primários, estabelecer limites para gastos discricionários e reduzir a estrutura do governo. Até agora, porém, a equipe econômica não detalhou todas as medidas necessárias para atingir o ajuste anunciado.

Lula segue por outro caminho. Sua equipe defende o aperfeiçoamento do atual arcabouço fiscal e trabalha com a meta de resultado primário positivo equivalente a 0,5% do PIB em 2027, em caso de reeleição. O programa mantém a aposta no investimento público e na atuação do Estado para estimular áreas como infraestrutura e indústria.
Economistas têm apontado, no entanto, que o próximo governo, independentemente do vencedor, terá de enfrentar o crescimento das despesas obrigatórias e da dívida.
As diferenças ficam mais evidentes na discussão sobre o tamanho do Estado. Flávio pretende retomar o Programa Nacional de Desestatização e avaliar individualmente empresas e setores para definir onde a presença estatal deve ser mantida. O plano também prevê acelerar concessões e cortar pelo menos dez ministérios, além de reduzir cargos comissionados e despesas administrativas.
Lula não propõe um programa de privatizações. Seu plano mantém o Estado como indutor do desenvolvimento, embora também contemple concessões de infraestrutura e participação privada em investimentos. O programa cita a continuidade dos leilões de rodovias e ferrovias e uma nova etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
No mercado de trabalho, as campanhas também apresentam abordagens diferentes. Flávio não propõe o fim da escala 6×1 e defende maior espaço para negociação entre empresas e trabalhadores, com jornadas flexíveis. A campanha afirma que o governo não deve estabelecer um único modelo para as relações de trabalho.
A equipe de Lula apoia a mudança da escala de seis dias de trabalho por um de descanso para um modelo 5×2. A proposta prevê reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas sem diminuição salarial. Uma alteração dessa natureza depende de aprovação no Congresso.
Outra diferença está na reforma tributária. A coordenadora do programa econômico de Flávio, Daniella Marques, defende uma revisão das mudanças aprovadas nos últimos anos. O plano do 1 Coletânea de matérias | 7 de outubro de 2026candidato prevê reduzir exceções, rever pontos da regulamentação e buscar uma alíquota menor para o novo sistema de tributação do consumo.
A campanha de Lula pretende preservar a reforma e avançar na sua implementação. O governo considera a mudança um dos principais componentes de sua agenda econômica e rejeita a possibilidade de desmontar o modelo aprovado pelo Congresso.
As diferenças também aparecem na política para o salário mínimo. Lula promete manter a regra que combina inflação com o crescimento do PIB de dois anos antes, respeitado o limite de 2,5% de ganho real previsto pelo arcabouço fiscal. A equipe de Flávio ainda não apresentou uma proposta definitiva para substituir ou preservar o mecanismo e afirma que cortes na estrutura do Estado e em benefícios considerados excessivos devem ser discutidos antes de mudanças na política do mínimo.
Na Previdência, Flávio propõe ampliar a digitalização do INSS, profissionalizar a administração do órgão, reeditar medidas antifraude e modificar a governança dos empréstimos consignados. A campanha de Lula aponta como possíveis frentes a revisão de benefícios diferenciados, inclusive entre militares e parcelas do funcionalismo, e mudanças na contribuição previdenciária de empresas com utilização elevada de trabalhadores contratados como pessoas jurídicas.
Os dois candidatos afirmam que pretendem preservar programas sociais. Flávio propõe associá-los a uma trajetória de qualificação profissional, acesso ao emprego, crédito e formação de patrimônio, além de reforçar mecanismos contra fraudes. Lula promete manter e ampliar políticas de transferência e proteção social, incluindo Bolsa Família e Pé-de-Meia.
A falta de maior detalhamento sobre algumas medidas deverá aumentar a atenção sobre as equipes econômicas durante o segundo turno. O mercado reagiu ao resultado de domingo com expectativa de mudanças na política fiscal caso Flávio seja eleito, mas analistas alertam que estabilizar a dívida exigirá medidas concretas e capacidade de aprovação no Congresso.
A discussão nas próximas semanas tende, assim, a migrar das diretrizes gerais apresentadas no primeiro turno para o custo e a execução das propostas econômicas dos dois candidatos.