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Saúde

Anvisa aprova 14 canetas em 2026, e fim da patente derruba o preço da semaglutida

Genérico da EMS pode custar a partir de R$ 293 contra R$ 975 do Ozempic, mas médicos lembram que preço não é o único critério de escolha
Agora RN
17/09/2026 | 17:37

Quem procura canetas de semaglutida e outros injetáveis para tratar diabetes tipo 2 ou obesidade encontra em 2026 uma prateleira bem diferente da que existia há dois anos. Novos fabricantes entraram no mercado da substância, houve lançamentos de liraglutida e chegou uma versão inédita do Mounjaro. O resultado aparece nos registros da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Foram 14 canetas aprovadas no país neste ano. Dez delas trazem semaglutida, três usam liraglutida e a restante é a nova apresentação do Mounjaro, feito à base de tirzepatida. A virada de chave veio quando acabou a exclusividade da semaglutida, princípio ativo que ficou conhecido pelo Ozempic e pelo Wegovy, ambos da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk.

Caneta injetável apoiada ao lado da caixa do medicamento, sobre superfície clara
Imagem ilustrativa; a semaglutida perdeu a exclusividade em março e já tem genéricos registrados no Brasil — Pexels

Ter mais opções na farmácia, porém, não reduz a escolha a uma comparação de preço nem de quilos perdidos. Quem coordena o Serviço de Endocrinologia e Metabologia no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, a médica Bruna Marinho, enumera o que precisa entrar na conta: o diagnóstico, o quanto o paciente precisa emagrecer, outras doenças que ele tenha, as evidências científicas de cada produto e a chance real de manter o tratamento por muito tempo.

Esse último item pesa porque diabetes e obesidade são doenças crônicas, que acompanham a pessoa por anos. O remédio pode ter de ser usado durante meses ou anos seguidos, e aí o custo mensal entra na decisão. Um produto com maior potencial de emagrecimento, caso do Mounjaro, a única tirzepatida com aval da Anvisa, pode não servir a quem não consegue bancar o uso continuado.

Os efeitos adversos completam o quadro. Esses medicamentos agem sobre o sistema gastrointestinal, o conjunto de órgãos que faz a digestão, e podem causar náusea, dor na barriga, refluxo, prisão de ventre e outras alterações. São reações que costumam aparecer no começo do uso e ajudam a explicar por que parte dos pacientes abandona o tratamento.

A maior movimentação do ano se deu mesmo com a semaglutida, aplicada uma vez por semana com a caneta, um aplicador em forma de canetão que já vem com a dose ajustada. A substância copia a ação do GLP-1, hormônio que o próprio corpo fabrica e que participa do controle da glicose, o açúcar que circula no sangue, e da saciedade. Ao ativar os receptores desse hormônio, a molécula segura a glicemia, corta o apetite e estica a sensação de estômago cheio, efeitos que ajudam a perder peso.

Até março, quem fabricava semaglutida no Brasil era só a Novo Nordisk. A proteção de patente, o período em que a inventora explora sozinha a molécula, caiu em 20 de março, e outras farmacêuticas puderam então registrar as próprias versões.

O primeiro a entrar na fila foi o Ozivy, da EMS, aprovado em 26 de maio, logo depois da queda da exclusividade. Ficou registrado para adultos que têm diabetes tipo 2 e não conseguem controlar a doença de forma suficiente com o tratamento em uso.

Dois meses adiante, a lista engordou de uma vez só. Em 29 de julho saíram cinco aprovações de fabricantes diferentes: da Ávita Care veio o Owozy; da Sun Farmacêutica, o Seemasun; a Brainfarma emplacou o Zempneo; a Cosmed, o Semavy; e a Ranbaxy, o Orsema. Todas as indicações informadas apontam para o mesmo público de adultos com diabetes tipo 2 sem controle adequado.

Agosto foi o mês dos genéricos. No dia 17 daquele mês, a EMS obteve o registro do primeiro genérico de semaglutida do país inteiro, produto que, pela legislação aplicada a essa categoria, não pode ter nome comercial. Na mesma data, a Anvisa liberou o Semaclique, da Germed, na condição de similar. Uma semana depois, em 24 de agosto, a própria Germed emplacou o segundo genérico. E em 31 de agosto a EMS ainda recebeu o Yluméc, similar na modalidade clone.

Para quem compra, a diferença entre as categorias importa. O similar tem marca e nem sempre pode ser trocado automaticamente pelo remédio de referência, aquele que foi registrado primeiro e serviu de base para os testes. Já o genérico segue regras próprias e chega às prateleiras sem nome comercial, identificado apenas pelo princípio ativo. O similar na modalidade clone é uma cópia idêntica de um medicamento já registrado pela mesma empresa, vendida com outro nome.

Preço entra na disputa

Com mais concorrentes, o preço virou peça central. O Ozempic aparece a partir de R$ 975 em duas apresentações, a de 0,25 mg e a de 0,5 mg, valor praticado pelo programa Preço NovoDia nas vendas pela internet. Na dosagem de 1 mg, o preço sobe para R$ 999.

O Ozivy desembarcou nas farmácias entre R$ 452 e R$ 498 por caneta. No caso dos genéricos, a lei manda cobrar no mínimo 35% menos que o medicamento de referência. Tomando os valores de lançamento do Ozivy como base de cálculo, a faixa estimada para essas versões vai de R$ 293 a R$ 323 por caneta.

Não foi só a semaglutida a ganhar concorrência neste ano. A liraglutida, que também age como agonista do receptor de GLP-1, somou três registros novos.

A Anvisa aprovou em 1º de junho o Liraclick, liraglutida sintética da Germed. Já em 8 de setembro, autorizou dois genéricos de liraglutida fabricados pela EMS para tratar obesidade e diabetes tipo 2.

Esses genéricos têm como matriz dois produtos da própria EMS, o Olire e o Lirux, que começaram a aparecer nas farmácias no fim de 2025. O Olire é indicado para obesidade; o Lirux, para diabetes tipo 2. Ambos saem em canetas de 6 mg e são anunciados por preços que partem de R$ 84 nas grandes redes de farmácia.

Depois de anos em que poucas marcas concentravam a atenção de quem faz esse tipo de tratamento, 2026 muda o desenho do mercado brasileiro. Genéricos e similares ampliam a concorrência e espalham a faixa de preços, sem apagar uma questão de fundo: por se tratar de doença crônica, a escolha tem de pesar segurança, indicação médica e a chance de seguir com o remédio pelo tempo que for preciso, não apenas o efeito esperado.