O expediente acaba, mas as mensagens de trabalho não param de chegar. O celular mantém os funcionários ligados às demandas da empresa fora do horário, e metas, equipes enxutas e a dificuldade de separar vida pessoal e profissional prolongam o estado de alerta. Nesse cenário, o burnout, o esgotamento profissional, deixou de ser só uma forma de falar de uma semana puxada e passou a tirar cada vez mais brasileiros do trabalho, e os afastamentos por burnout dispararam.
De 2023 a 2025, os afastamentos de mais de 15 dias ligados ao esgotamento e a problemas relacionados à organização do modo de vida saltaram de 1.760 para 6.985, um crescimento de 296%. O levantamento é da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), entidade que reúne os médicos especialistas na área, com base em dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O problema pode ser ainda maior. Os números contam apenas quem ficou afastado por mais de 15 dias, prazo a partir do qual o benefício passa a ser pago pelo INSS, e deixam de fora quem se ausentou por menos tempo ou seguiu trabalhando mesmo com sintomas de esgotamento.
Não existe um exame específico para identificar o burnout. O diagnóstico é clínico e leva em conta tanto as queixas do trabalhador quanto as condições em que ele trabalha. Cansaço físico, queda de rendimento e uma espécie de piloto automático no dia a dia profissional estão entre os sinais.
A avaliação vai além da pessoa. Excesso de tarefas, controle exagerado por parte das chefias, falta de reconhecimento, pouca autonomia e o modo como o trabalho é organizado também entram na conta, porque o ambiente ajuda a explicar por que os sintomas apareceram e continuaram.
O quadro pode trazer ainda mudanças no sono, dificuldade de dar conta das tarefas, sensação de incapacidade, pensamentos repetidos de que não se tem valor, tristeza e irritação. Como alguns desses sintomas se parecem com os de outros transtornos mentais, é preciso passar por avaliação profissional para fechar o diagnóstico.
Especialistas associam o aumento dos casos à hiperconectividade, o estado de estar sempre conectado, ao excesso de estímulos, à falta de descanso adequado e a ambientes de trabalho disfuncionais. Com celulares e outros aparelhos, as cobranças da empresa passaram a seguir o trabalhador depois do expediente, e a fronteira entre a vida profissional e a pessoal ficou menor.
Uma pesquisa da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), feita com representantes de empresas que juntas empregam 300 mil pessoas, mostra o tamanho da dificuldade. Das organizações ouvidas, 89% não têm regras para impedir o envio de mensagens fora do horário de trabalho, e 65% não têm programas para prevenir riscos à saúde mental.
Além da conexão o tempo todo, tarefas e metas repetitivas podem fazer o trabalho perder o sentido. A psicóloga Aline Wolff, do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), liga o burnout a uma rotina automática, em que a pessoa segue produzindo, mas tem dificuldade de enxergar o propósito do que faz.
Equipes menores também podem aumentar a sobrecarga. Para o psiquiatra Gabriel Okuda, do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, problemas financeiros das empresas podem levar a cortes de pessoal, o que aumenta as tarefas de quem fica e a insegurança de perder o emprego. Quando alguém se afasta, o trabalho dessa pessoa pode ser dividido entre colegas já sobrecarregados, o que alimenta um ciclo de adoecimento.
Especialistas defendem, então, que o esgotamento profissional não seja tratado apenas como questão individual de cada trabalhador. Além do acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e, se necessário, do afastamento, a solução pode exigir menos carga de trabalho, reorganização das equipes, revisão das jornadas e mudança na forma de cobrar resultados.
Desde 26 de maio, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata da gestão de riscos no trabalho, passou a incluir os riscos à saúde mental, como assédio, pressão por metas e jornadas longas. Dormir bem, fazer atividade física, ter lazer e manter a convivência social ajudam a prevenir o burnout, mas esses cuidados têm efeito limitado se a sobrecarga continua. Por isso, também é necessário mudar o ambiente e a organização do trabalho.