BUSCAR
BUSCAR
Saúde do trabalhador

Afastamentos por burnout sobem 296% em dois anos e chegam a 6.985 no Brasil, aponta Anamt

Hiperconectividade e equipes enxutas estão entre as causas; 89% das empresas ouvidas pela ABQV não têm regras contra mensagens fora do horário de trabalho
Agora RN
16/09/2026 | 17:44

O expediente acaba, mas as mensagens de trabalho não param de chegar. O celular mantém os funcionários ligados às demandas da empresa fora do horário, e metas, equipes enxutas e a dificuldade de separar vida pessoal e profissional prolongam o estado de alerta. Nesse cenário, o burnout, o esgotamento profissional, deixou de ser só uma forma de falar de uma semana puxada e passou a tirar cada vez mais brasileiros do trabalho, e os afastamentos por burnout dispararam.

De 2023 a 2025, os afastamentos de mais de 15 dias ligados ao esgotamento e a problemas relacionados à organização do modo de vida saltaram de 1.760 para 6.985, um crescimento de 296%. O levantamento é da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), entidade que reúne os médicos especialistas na área, com base em dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Mulher com as mãos na cabeça diante de uma pasta de documentos em escritório, com colegas trabalhando ao fundo
Imagem ilustrativa; jornadas prolongadas estão entre os fatores ligados ao esgotamento profissional — Pexels

O problema pode ser ainda maior. Os números contam apenas quem ficou afastado por mais de 15 dias, prazo a partir do qual o benefício passa a ser pago pelo INSS, e deixam de fora quem se ausentou por menos tempo ou seguiu trabalhando mesmo com sintomas de esgotamento.

Não existe um exame específico para identificar o burnout. O diagnóstico é clínico e leva em conta tanto as queixas do trabalhador quanto as condições em que ele trabalha. Cansaço físico, queda de rendimento e uma espécie de piloto automático no dia a dia profissional estão entre os sinais.

A avaliação vai além da pessoa. Excesso de tarefas, controle exagerado por parte das chefias, falta de reconhecimento, pouca autonomia e o modo como o trabalho é organizado também entram na conta, porque o ambiente ajuda a explicar por que os sintomas apareceram e continuaram.

O quadro pode trazer ainda mudanças no sono, dificuldade de dar conta das tarefas, sensação de incapacidade, pensamentos repetidos de que não se tem valor, tristeza e irritação. Como alguns desses sintomas se parecem com os de outros transtornos mentais, é preciso passar por avaliação profissional para fechar o diagnóstico.

Especialistas associam o aumento dos casos à hiperconectividade, o estado de estar sempre conectado, ao excesso de estímulos, à falta de descanso adequado e a ambientes de trabalho disfuncionais. Com celulares e outros aparelhos, as cobranças da empresa passaram a seguir o trabalhador depois do expediente, e a fronteira entre a vida profissional e a pessoal ficou menor.

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), feita com representantes de empresas que juntas empregam 300 mil pessoas, mostra o tamanho da dificuldade. Das organizações ouvidas, 89% não têm regras para impedir o envio de mensagens fora do horário de trabalho, e 65% não têm programas para prevenir riscos à saúde mental.

Além da conexão o tempo todo, tarefas e metas repetitivas podem fazer o trabalho perder o sentido. A psicóloga Aline Wolff, do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), liga o burnout a uma rotina automática, em que a pessoa segue produzindo, mas tem dificuldade de enxergar o propósito do que faz.

Equipes menores também podem aumentar a sobrecarga. Para o psiquiatra Gabriel Okuda, do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, problemas financeiros das empresas podem levar a cortes de pessoal, o que aumenta as tarefas de quem fica e a insegurança de perder o emprego. Quando alguém se afasta, o trabalho dessa pessoa pode ser dividido entre colegas já sobrecarregados, o que alimenta um ciclo de adoecimento.

Especialistas defendem, então, que o esgotamento profissional não seja tratado apenas como questão individual de cada trabalhador. Além do acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e, se necessário, do afastamento, a solução pode exigir menos carga de trabalho, reorganização das equipes, revisão das jornadas e mudança na forma de cobrar resultados.

Desde 26 de maio, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata da gestão de riscos no trabalho, passou a incluir os riscos à saúde mental, como assédio, pressão por metas e jornadas longas. Dormir bem, fazer atividade física, ter lazer e manter a convivência social ajudam a prevenir o burnout, mas esses cuidados têm efeito limitado se a sobrecarga continua. Por isso, também é necessário mudar o ambiente e a organização do trabalho.