O deputado estadual e candidato à reeleição Luiz Eduardo Bento da Silva (PL), cuja defesa reconheceu nesta segunda-feira 14 que valores em espécie que chegam a R$ 1,5 milhão estavam guardados na residência dele, acumulou ao longo do mandato acusações de crime, irregularidades e falta de honestidade política contra os governos do PT. Em discursos na Assembleia Legislativa, o parlamentar empregou termos como “peculato”, “apropriação indébita”, “crime”, “mentira” e “petrolão” ao atacar as gestões da governadora Fátima Bezerra (PT) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A manifestação da defesa ocorreu depois que a Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Lastro e apreendeu mais de R$ 1,5 milhão em dinheiro vivo, celulares, documentos e equipamentos eletrônicos durante o cumprimento de dois mandados de busca e apreensão em Natal. As medidas foram autorizadas pela Justiça Eleitoral.

A operação apura indícios de falsidade ideológica eleitoral e a possível utilização de recursos financeiros não declarados em atividades de campanha. Segundo a PF, a investigação identificou saques em espécie feitos por um servidor do Rio Grande do Norte em circunstâncias que indicariam incompatibilidade entre os recursos movimentados e o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral.
O comunicado oficial da corporação não identifica Luiz Eduardo, não informa os endereços das buscas nem especifica quanto foi encontrado em cada local. Também não afirma que todo o montante apreendido estava na residência do deputado. A relação do parlamentar com o caso foi reconhecida pela própria defesa ao informar que os saques ocorreram em contas bancárias dele e que os valores permaneciam guardados em casa.
A defesa classificou a movimentação como “lícita, declarada e de origem plenamente comprovada” e informou que apresentará a documentação às autoridades. Os comprovantes ainda não foram divulgados publicamente. A nota também não esclarece por que o dinheiro foi retirado do sistema bancário, durante quanto tempo ficou guardado, qual seria sua destinação nem quanto do total apreendido estava no imóvel do parlamentar.
“Os valores sacados permaneciam guardados em sua residência e não foram gastos”, afirmou a defesa. Para o deputado, a ausência de despesas afastaria qualquer finalidade eleitoral. Ele negou a existência de caixa dois e declarou que colabora com as investigações.
A situação ocorre meses depois de Luiz Eduardo usar a tribuna da Assembleia para atribuir crimes ao governo Fátima. Em março deste ano, ao cobrar o repasse das parcelas de empréstimos consignados descontadas dos salários dos servidores estaduais, o parlamentar afirmou que a administração retinha os valores sem transferi-los às instituições financeiras.
“Isso é peculato, é apropriação indébita. Isso é crime”, declarou. A classificação jurídica foi feita pelo próprio deputado. Não houve decisão judicial citada por ele reconhecendo a prática desses crimes pelo governo estadual.
O assunto já havia levado Luiz Eduardo a apresentar representações contra Fátima e integrantes da administração estadual em 2023. Naquele ano, ele recorreu à Procuradoria-Geral da República e à Procuradoria-Geral de Justiça do Rio Grande do Norte para pedir investigações nas esferas criminal e administrativa. Em outro pronunciamento, acusou o governo de anunciar uma recuperação de estradas que, segundo ele, seria apenas uma operação tapa-buracos. “Mais uma mentira tentando ludibriar a sociedade”, afirmou.
O discurso mais diretamente associado à conduta moral do PT ocorreu em julho de 2025, durante a articulação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar licitações nas áreas de Educação e Saúde. Luiz Eduardo citou procedimentos que somavam aproximadamente R$ 250 milhões e tinham sido objeto de intervenções do Tribunal de Contas da União.
“O Governo é do PT e sabemos do que o partido é capaz”, declarou o parlamentar ao defender a apuração. Ele também disse que havia “muitos milhões do dinheiro público sob suspeita” e sustentou que a Assembleia não poderia ignorar os questionamentos apresentados pelo TCU.
As intervenções do tribunal envolviam uma contratação relacionada ao Hospital Metropolitano e um processo de aluguel de chromebooks para a rede estadual. O governo afirmou na ocasião que os procedimentos obedeceram a critérios técnicos e apresentou esclarecimentos ao órgão de controle. Suspensões e diligências determinadas pelo TCU não representam, por si, comprovação de corrupção.
No plenário, Luiz Eduardo perguntou ainda se o País estaria diante de um novo “petrolão da educação”. A expressão foi empregada ao comentar valores de um programa federal, não como acusação específica já comprovada contra Fátima. O deputado também retomou na Assembleia o caso da compra frustrada de respiradores pelo Consórcio Nordeste e cobrou esclarecimentos sobre a destinação dos recursos.
A Operação Sem Lastro permanece na fase de investigação. Não foram divulgados indiciamento, denúncia do Ministério Público ou decisão judicial que reconheça a prática de caixa dois por Luiz Eduardo. A PF deverá analisar os documentos, celulares e equipamentos apreendidos, além de confrontar os valores encontrados com registros bancários, patrimônio declarado e informações apresentadas à Justiça Eleitoral.