O candidato do PL à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), é oficialmente investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) no inquérito sobre o financiamento de “Dark Horse”, filme que conta a trajetória do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso por ter liderado a trama golpista. A inclusão do senador como alvo foi determinada em 22 de julho pelo ministro André Mendonça, relator do caso, a pedido da Polícia Federal e com o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR).
É explícito o pedido da PF sobre o que se quer investigar. “A Polícia Federal requer a instauração de PET sigilosa em apartado, vinculada ao INQ 5026, para apurar a possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos, que teriam sido praticados, em tese, pelo Senador da República Flávio Nantes Bolsonaro, no contexto de financiamento para a produção de obra cinematográfica denominada Dark Horse junto ao Banco Master do banqueiro Daniel Bueno Vorcaro”, diz o documento. Mendonça aceitou o pedido sem, porém, especificar na decisão quais são as suspeitas.

A existência do inquérito veio a público depois que o ministro retirou, na noite da quinta-feira 10, o sigilo de 15 procedimentos derivados da Operação Compliance Zero, que apura a corrupção de agentes públicos e fraudes financeiras bilionárias atribuídas a Vorcaro e ao grupo dele. O ministro atendeu a uma solicitação do presidente do STF, Edson Fachin, que requereu a publicidade da investigação do Master, “ressalvado apenas o que diga respeito a diligências cujo sigilo seja imprescindível à realização da medida”. O conteúdo do inquérito sobre o filme, porém, continua sob segredo, assim como o restante da apuração que envolve o Master e “Dark Horse”.
Procurada por meio da assessoria na manhã da sexta-feira 11, a campanha de Flávio não se manifestou. O senador já negou irregularidades e sustenta que a produção contou apenas com dinheiro privado. Desde que o portal The Intercept Brasil publicou áudios em que ele aparece pedindo a Vorcaro recursos para o filme, Flávio não contesta a autenticidade da gravação — diz não haver nada de errado em buscar patrocínio privado para contar a história do pai.
Pelo que revelou o Intercept, o senador tratou pessoalmente com o fundador do Banco Master de um aporte de no mínimo US$ 24 milhões, algo como R$ 122,7 milhões na cotação atual. Desse total, ao menos US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 62,9 milhões, teriam sido de fato pagos, de acordo com papéis da investigação que a revista piauí obteve. Em julho, a Folha de S.Paulo já havia informado que Flávio estava entre os alvos.
Os investigadores desconfiam também que parte do dinheiro levantado para o filme tenha servido para cobrir gastos do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, que hoje mora nos Estados Unidos. Eduardo também é alvo da apuração, apontado como possível beneficiário de parte dos recursos.
Preso, Vorcaro é alvo de apuração sobre uma fraude de bilhões contra o sistema financeiro, que teria sido executada através do Master. Na quarta-feira 9, Mendonça homologou a delação premiada do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, apontado como responsável por repasses em dinheiro vivo ligados ao filme. Segundo a delação, ele fazia remessas e conseguia dinheiro em espécie para o banqueiro — e, pelo volume, em algumas ocasiões os valores foram entregues em malas.
Mineiro teria feito, entre outras operações, transferências para o Havengate Development Fund, um fundo dos Estados Unidos usado para bancar o filme. Quem administra essa estrutura é o advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro.
Uma segunda frente sobre o filme foi aberta na mesma quinta-feira, com uma operação da PF autorizada pelo ministro Flávio Dino, também do STF. Nesse caso, o que se investiga é se houve desvio de R$ 750 mil da produção e uso irregular de dinheiro público. O deputado federal Mario Frias (PL-SP) está entre os alvos. De acordo com um relatório da apuração, o parlamentar mandou R$ 2 milhões em emendas para o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, que também é dona da Go Up Entertainment, a produtora do filme.
Depois da operação, Flávio chamou a investigação de “fajuta” e a associou à disputa presidencial. “Faltam 24 dias para a eleição, eles precisam inventar alguma coisa contra mim”, declarou.
Receba as notícias do Brasil no seu WhatsApp. Basta entrar no canal do Agora RN.