“Eu sou professor e o que eu gostaria de fazer é iniciar uma revolução na educação.” A frase é de Professor Robério Paulino (PSOL), candidato ao Governo do Rio Grande do Norte, e vem acompanhada de três prioridades para a área. A primeira é um mutirão contra o analfabetismo. A segunda, ampliar as escolas de tempo integral. A terceira, valorizar salarial e profissionalmente quem trabalha na rede estadual.
As medidas, no plano que ele descreve, começariam a sair do papel já nos primeiros 100 dias de uma eventual gestão — ainda que parte dos resultados dependa de investimento que leva anos e da recuperação das finanças estaduais.

A mobilização para alfabetizar jovem e adulto abre a lista. O candidato afirma que o Rio Grande do Norte ainda carrega entre 9% e 10% de pessoas analfabetas, e trata esse índice como sintoma de um atraso educacional que foi se acumulando ao longo de décadas. “As pessoas não dão importância a isso, mas isso é um sinônimo de atraso”, destacou.
Ele traz uma memória pessoal para dentro do assunto. Contou ter entrado num trabalho de alfabetização aos 16 anos, mais ou menos, num projeto desenvolvido no município de Serra do Mel. Para ele, o fato de o problema seguir de pé cinco décadas depois é a prova de que o Estado nunca tratou o assunto como prioridade de verdade.
A responsabilidade, ele mesmo reconhece, não pode ser atribuída apenas ao governo atual. Mas cobra da governadora Fátima Bezerra (PT) por ter percorrido dois mandatos inteiros sem dar fim ao analfabetismo. “Não é culpa só da professora Fátima, evidentemente. É culpa também de décadas e décadas dos governos oligárquicos do passado. Mas ela devia ter acabado com isso. E não acabou”, disse.
Vem então a expansão acelerada do ensino em tempo integral. Na conta do candidato, pouco mais de 30% das escolas do estado funcionam nesse modelo. Ele põe o número ao lado do que atribui a dois vizinhos: 100% no Piauí e cerca de 70% no Ceará. “Nós estamos com um pouquinho mais de 30%. Mesmo depois de dois governos de uma professora. Inaceitável, inadmissível”, declarou.
O candidato relaciona a jornada integral a duas coisas ao mesmo tempo: a melhoria no desempenho do estudante e a redução das desigualdades sociais. E acrescenta um efeito que costuma ficar de fora da conta — o que a medida faz pela rotina das mulheres, que ainda carregam a maior parte da responsabilidade pelo cuidado dos filhos. “A educação integral ajuda a melhorar a qualidade da educação e ajuda a liberar as mulheres para ir ao mercado de trabalho, para ir cuidar da vida”, afirmou.
Expandir, porém, exige obra antes de tudo. Robério reconhece que as escolas estaduais não dispõem hoje de estrutura suficiente para manter todos os alunos dentro delas o dia inteiro. “Eu não quero aqui fazer demagogia de você fazer educação em tempo integral se não tiver a condição de recuperação da infraestrutura de novos prédios na escola”, ressaltou. A proposta, portanto, envolveria dois movimentos simultâneos: recuperar o que já existe e ampliar a rede física com prédio novo.
Outro alvo das críticas foi o desempenho do Estado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb. Ele lembrou que o Rio Grande do Norte permaneceu quatro anos seguidos na última colocação e que, mesmo com o avanço vindo depois, continua mal colocado quando se olha o Brasil inteiro. “Nós continuamos na 18ª posição. É muito ruim”, avaliou.
No terceiro eixo entram o professor e os demais servidores da educação, e a palavra é valorização. O candidato evitou cravar um percentual de reajuste, mas afirmou que pretende conceder o aumento que a situação orçamentária permitir. “Valorizar salarialmente. Não estou prometendo aqui 300% de aumento, porque eu sei que é uma questão orçamentária limitante, que limita isso, mas valorizar tudo o que seria possível”, afirmou.
Além do contracheque, propôs reservar uma parte da jornada do professor para a formação continuada. Uma das medidas seria reunir os educadores todo mês, para treinamento e para discutir que rumo a rede estadual deve tomar. Chegou a desenhar em voz alta como isso funcionaria: “Eu chamaria um dia sem aula. Chamaria todas as professoras aqui no Centro de Convenções para uma reunião, para um treinamento, para rediscutir completamente a educação”, disse. Defendeu ainda que as universidades e os especialistas entrem na formulação das políticas públicas da área.
Na visão dele, o professor precisa ocupar o centro de qualquer transformação. Ele criticou o salário pago a quem leciona no ensino fundamental e amarrou a motivação do docente ao desempenho do aluno. “Você não consegue fazer uma boa educação, motivar o aluno, se a professora está desmotivada”, afirmou o candidato. “O que não pode é a professora ser a profissional mais mal paga do país.”
Contestou, por fim, o modelo escolar assentado em decorar conteúdo e prestar prova. “Educação, para mim, não é o aluno decorar o conteúdo para fazer uma prova”, declarou ele. “Educação tem que ser encantamento, fazer o aluno se apaixonar pelo conhecimento.”