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Saúde

AGU dá 72 horas ao YouTube para tirar do ar falsos médicos criados com inteligência artificial

Ministério da Saúde achou 97 perfis entre janeiro e julho, parte deles mirando idosos e usando a suposta orientação médica para vender produto
Agora RN
10/09/2026 | 17:05

Eles têm rosto, eles têm voz e, postos diante da câmera, parecem carregar todas as credenciais necessárias para falar de saúde. Só que alguns desses supostos médicos nunca existiram na vida real. Avatares fabricados com inteligência artificial e apresentados como profissionais da área viraram alvo do governo federal. Foi uma análise feita pelo Ministério da Saúde que localizou os perfis, espalhando informação falsa e prometendo tratamento sem respaldo científico.

Coube à Advocacia-Geral da União notificar o YouTube, exigindo que a plataforma retire o material apontado ou avise de forma explícita ao usuário que aqueles personagens não são gente de verdade. A plataforma ficou com 72 horas para derrubar o material ou pôr nele um aviso que denuncie a natureza artificial do personagem. A AGU pediu também que a empresa avalie outros canais citados no levantamento e adote providências para conter a circulação desse tipo de vídeo.

Pessoa deitada segura celular com a imagem de um médico na tela e uma cartela de comprimidos na outra mão
Consulta médica por vídeo — Imagem ilustrativa — Foto: Pexels

Há duas características que tornam a inteligência artificial especialmente difícil de administrar dentro das redes sociais, e o problema nasce justamente da soma delas: a facilidade de fabricar uma figura que pareça confiável e a velocidade com que essa figura alcança gente em busca de resposta.

Conforme o governo, o que se vê nesses vídeos são avatares com jeito de gente, exibidos como médicos ou como outros profissionais de saúde — e ostentando qualificação inexistente. Parte desse conteúdo é dirigida especificamente ao público idoso. E, em determinados casos, a suposta orientação de saúde funciona como caminho para a promoção de produto e de serviço pago.

Ao todo, 97 perfis com material desse tipo foram identificados pelo Ministério da Saúde no intervalo entre 1º de janeiro e 10 de julho deste ano. Pelo que mostra o levantamento, os vídeos apelam para uma linguagem alarmista, e é assim que conquistam a atenção de quem assiste e passam a impressão de credibilidade.

Quando o assunto é saúde, porém, a mentira dita por quem parece ocupar posição de autoridade produz efeito fora da tela. O alerta do governo é claro: conteúdo assim estimula automedicação, faz paciente largar tratamento e adia a ida ao profissional. Com as ferramentas de IA se popularizando, ganha mais uma camada um problema que já existia antes mesmo de a tecnologia aparecer.

Informação médica falsa circula pela internet há anos, e o mesmo vale para promessa de cura, para tratamento milagroso e para produto apresentado como solução de doença. O que mudou foi a possibilidade de pôr tudo isso na boca de uma criatura sintética, com rosto, com voz e com uma biografia profissional que soa plausível.

Essa ofensiva no YouTube se encaixa, aliás, numa frente mais ampla do governo contra conteúdo digital capaz de fazer mal à saúde pública. Numa iniciativa anterior, o Telegram foi notificado depois que se identificaram grupos usados para comercializar comprovante falso de vacinação. Aqueles canais acabaram derrubados, e o caso foi parar na Polícia Federal.

Na avaliação do Ministério da Saúde, vender documento falsificado é um problema maior do que a fraude individual. Registro de vacinação que não bate com a realidade compromete o controle de doença e distorce o dado de cobertura vacinal com que o poder público trabalha — e isso atrapalha o trabalho de vigilância.

Já nos vídeos produzidos com inteligência artificial o desafio é de outra natureza, mas parte do risco se repete: uma informação falsa pode parecer legítima o bastante para interferir numa decisão real. E, à medida que os avatares ficam mais convincentes, reconhecer a fraude apenas pela aparência tende a ficar cada vez mais difícil. Um jaleco, uma voz firme e um título exibido na tela já bastavam para dar autoridade a uma mensagem qualquer. Com a inteligência artificial, nem precisa haver alguém por trás disso tudo.