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Educação

Nova York suspende por um ano o uso de IA generativa até o 8º ano, e Los Angeles bloqueia em todas as séries

No Brasil, o Conselho Nacional de Educação vetou o acesso autônomo até o 5º ano; pesquisas na PNAS e no MIT apontam perda de habilidade e de memória
Agora RN
10/09/2026 | 17:32

Antes que escola e governo tivessem tempo de decidir qual seria o seu lugar ali dentro, a inteligência artificial já havia entrado na sala de aula. Agora vêm as tentativas de estabelecer limite para o uso da tecnologia por criança e adolescente, e elas partem de três lugares diferentes: Nova York, Los Angeles e o Brasil. As medidas não são iguais, mas nascem de uma inquietação comum — o que acontece com a aprendizagem quando passa a fazer parte da rotina escolar uma ferramenta capaz de despejar texto, resposta e solução em questão de segundos?

Em Nova York, a saída anunciada pela prefeitura foi uma moratória. Por um ano, fica suspenso o uso de inteligência artificial generativa por aluno da pré-escola até o 8.º ano, o que atinge algo em torno de 600 mil estudantes — aproximadamente dois terços de toda a rede pública da cidade. Nesse intervalo, a administração pretende medir os efeitos da tecnologia e experimentar projetos antes de desenhar a política que valerá em definitivo.

Estudantes uniformizados usam computadores em laboratório de informática de uma escola
Ferramentas de inteligência artificial generativa passaram a ser alvo de restrições em diferentes sistemas de ensino — Foto: Pexels

Para o ensino médio, a receita é outra. Em vez de barrar o acesso, a cidade vai dar a todos os estudantes dessa etapa aula de alfabetização no uso da inteligência artificial.

Ao anunciar a suspensão, o prefeito Zohran Mamdani falou do valor das relações humanas dentro da escola e da importância de o aluno encarar sozinho aquilo que é difícil. O anúncio, porém, não aponta nenhum estudo científico específico como base da decisão. A própria medida assume isso ao reservar os doze meses seguintes para examinar evidência e resultado de projeto-piloto.

Los Angeles foi mais longe. A rede de ensino da cidade fechou o acesso dos estudantes a ferramenta de inteligência artificial generativa nos computadores e nos tablets que as escolas fornecem, e a proibição vale para todas as séries, sem recorte de idade. São cerca de 378 mil alunos alcançados pela decisão.

O Brasil também mexeu na regra. O Conselho Nacional de Educação aprovou diretrizes novas para o emprego da IA dentro da educação básica. Até o 5.º ano do fundamental, o texto veda que a criança acesse essas ferramentas — as generativas, sobretudo — de forma direta, individual, autônoma e sem que haja supervisão.

Tudo isso acontece no momento em que a pesquisa científica começa a olhar com mais atenção para o efeito da tecnologia sobre o jeito como o estudante aprende e guarda informação.

Um dos trabalhos saiu em 2025 na revista PNAS — sigla de Proceedings of the National Academy of Sciences — e acompanhou perto de mil alunos de ensino médio em atividade de Matemática. Metade deles trabalhou com o GPT-4; a outra parte cumpriu as mesmas tarefas sem recorrer à ferramenta. Quando a inteligência artificial foi tirada de cena, quem havia contado com ela rendeu menos — e os pesquisadores atribuíram esse desempenho pior a uma aquisição menor de habilidade.

Outro experimento veio do Massachusetts Institute of Technology, o MIT. Pesquisadores observaram a atividade cerebral de adultos que escreviam redação com graus distintos de ajuda tecnológica: uns sem ferramenta alguma, outros com o Google, outros com o ChatGPT, todos monitorados por eletroencefalograma. A conectividade entre regiões do cérebro variou de um grupo para outro. Quem usou o ChatGPT ficou com a menor conectividade entre as áreas analisadas e, além disso, teve mais dificuldade para lembrar trechos do texto que o próprio participante havia produzido durante o teste.

Nenhuma dessas pesquisas encerra o debate sobre o que a inteligência artificial provoca na educação. Elas ajudam, isso sim, a entender por que governo e escola passaram a tratar o tema com cautela maior. A pergunta deixou de ser apenas se o estudante pode usar a tecnologia: agora envolve de que modo, em que momento e sob a supervisão de quem.

O tema já tinha chegado aos organismos internacionais. Em 2023, a Unesco publicou seu primeiro documento de alcance mundial voltado especificamente para a IA generativa dentro da educação. Ali a organização defende uma abordagem que ponha o ser humano no centro e recomenda que cada país fixe regra para proteger estudante, professor e dado pessoal.

Enquanto a tecnologia segue avançando, a escola começa a se dedicar a uma tarefa bem menos tecnológica: ensinar o aluno a pensar antes de encomendar o pensamento a uma máquina.