Há amizade que rende mais longe da câmera. E há aquela que parece ter nascido para ficar diante dela. Mônica Martelli e Ingrid Guimarães estão no segundo caso: a cumplicidade que atravessa, há anos, entrevista, viagem, trabalho e a vida particular das duas acaba de ganhar uma história só dela nas telas.
O filme se chama Minha Melhor Amiga e estreou nos cinemas do país na quinta-feira 3 de setembro. Ele parte justamente dessa intimidade, e busca inspiração em outro lugar além da amizade entre as atrizes: numa fase muito específica que ambas viveram, a de ver crescer as filhas adolescentes. As meninas se chamam Julia, a de Mônica, e Clara, a de Ingrid.

Mas o que é real serve só de trampolim. A ficção embaralha os nomes: quem interpreta Julia é Mônica; quem vive Clara é Ingrid. As duas personagens são melhores amigas que batem nos 50 anos tentando conciliar aquilo que a maturidade muda com uma rotina que já não agrada como antes. E as filhas delas na tela — Manu, papel de Giulia Benite, e Isadora, a personagem de Gabi Amaral — estão às vésperas de fazer exatamente o percurso inverso, o de largar o cotidiano que conhecem.
O gatilho da trama é o intercâmbio das adolescentes em Portugal. Com as garotas fora, as mães enxergam a chance de escapar, ainda que por pouco tempo, das frustrações que carregam, e resolvem embarcar também para a Europa. A promessa é de férias divertidas ao lado delas — só que o roteiro previsível dura pouco. Em terras portuguesas o plano dá lugar ao imprevisto, e a viagem se converte numa espécie de acerto de contas: cada uma diante da vida que ergueu até aqui. Enquanto as meninas começam a descobrir quem serão, as mães, na casa dos 50, se dão conta de que talvez ainda caiba fazer a mesma pergunta.
Quem dirige é Susana Garcia, nome por trás também de Minha Vida em Marte e de Minha Mãe é uma Peça 3. A fronteira entre a biografia das protagonistas e o que foi inventado é, ela própria, um dos brinquedos do longa.
Uma dessas referências carrega peso especial para Mônica Martelli, e para quem viu de perto a parceria dela com Paulo Gustavo. Morto em 2021, vítima de complicações decorrentes da Covid-19, o ator e humorista está no filme sem aparecer em cena. A homenagem chega em forma de “easter egg”, numa passagem em que as personagens das duas atrizes andam por Sevilha, cidade espanhola. Emocionada, Mônica pede que a amiga dê um esbarrão num turista e depois se desculpe. O gesto é mínimo, e o que ele evoca é uma cena de Minha Vida em Marte, longa que teve Martelli e Paulo Gustavo como estrelas. Boa parte da plateia vai ver ali apenas mais um momento da viagem. Quem reconhecer de onde vem a brincadeira recupera a memória afetiva de uma dupla que trabalhou junta.
A aventura é movimentada por mães e filhas, mas basta o título para saber qual relação está no centro. O que as duas atrizes levam à tela é uma amizade que já era conhecida fora dela, e é dessa cumplicidade que o filme parte para falar de um momento da vida feminina raramente contemplado com o mesmo espaço dentro da comédia.
Nada em Julia e Clara sugere mulheres que chegaram ao fim de alguma coisa por terem completado 50 anos. O que elas têm pela frente são perguntas inéditas. Filhas cada vez mais independentes, insatisfação com pedaços da rotina, a chance de tentar outros caminhos: tudo isso as coloca diante do que se poderia chamar de segunda maioridade. O cenário para essa virada de perspectiva é a própria Europa — distantes de casa, elas conseguem olhar com mais nitidez para o que ficou atrás e para o que talvez ainda queiram alcançar.
No elenco, ao lado de Mônica Martelli e de Ingrid Guimarães, e das jovens Giulia Benite e Gabi Amaral, estão ainda Gustavo Machado e Albano Jerónimo, além de Ricardo Pereira, Alejandro Albarracín, Thaila Ayala e Michel Melamed.
No fim, a ida de Julia e Clara à Europa é mais do que uma tentativa de acompanhar as filhas numa aventura. Funciona como oportunidade de as duas amigas voltarem os olhos para si próprias. Ter 50 anos, sugere o filme, não significa dispor de todas as respostas. Significa, às vezes, apenas encontrar perguntas novas — de preferência com a melhor amiga do lado.