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Brasil

PF mira 29 pessoas e cumpre 49 mandados em operação sobre o dinheiro do filme de Bolsonaro

Deputado Mario Frias e a produtora Karina Gama estão entre os alvos; ela nega irregularidade e diz que os valores foram aplicados corretamente
Agora RN
10/09/2026 | 15:23

A Polícia Federal foi às ruas nesta quinta-feira 10 atrás do dinheiro que financiou “Dark Horse”, longa-metragem que conta a vida de Jair Bolsonaro (PL). A suspeita é de que recursos vindos de emendas parlamentares tenham sido desviados para bancar a produção do longa. A operação, feita em conjunto com a Controladoria-Geral da União, mira 29 pessoas e cumpre 49 mandados de busca e apreensão espalhados por quatro unidades da federação: São Paulo, Rio, Ceará e o Distrito Federal.

Dois nomes se destacam na lista dos investigados. O primeiro é o do deputado federal Mario Frias (PL-SP), a quem coube apresentar as emendas. O segundo é o de Karina Gama, produtora responsável pelo filme. Quem autorizou a ação foi o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e ele o fez dentro de uma investigação que nasceu de representação apresentada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP).

Mário Frias e Flávio Bolsonaro posam juntos em evento
Deputado Mário Frias e o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro — Instagram/Reprodução

Ainda com a operação em andamento, Karina Gama veio a público negar que houvesse irregularidade na utilização do dinheiro, sustentando que os valores foram aplicados exatamente como deveriam. “Não tenho nada para delatar”, afirmou a produtora.

A leitura da Polícia Federal é bem outra. Em nota, a corporação descreveu o que enxerga: “As investigações apontam a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados. As tentativas de dissimular os desvios teriam se estendidos até julho deste ano”. A polícia acrescentou que “levantamentos financeiros identificaram, ainda, movimentação da ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas que integram o esquema investigado”. Os investigados respondem por suspeita de peculato, de falsidade documental, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa e de crimes ligados a licitação.

Entre os alvos desta operação não está o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. Ele responde, porém, a outro processo, sob relatoria do ministro André Mendonça, no qual se apura se pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para bancar o mesmo filme. A produção acabou se transformando em desgaste para a campanha presidencial dele.

Foi em maio que o portal Intercept Brasil revelou a procura do senador a Vorcaro em busca de recursos para “Dark Horse”. O pedido teria sido feito dois meses antes de o então dono do Banco Master ser preso, e destinava-se a uma produção dedicada à trajetória do pai do senador, condenado por tentativa de golpe de Estado. Já às vésperas da prisão, ocorrida em 16 de novembro, Flávio mandou nova mensagem ao ex-banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.

Dino também mandou transferir ao Supremo o que a Polícia Civil paulista vinha apurando sobre o dinheiro do filme. Em agosto, o ministro já havia autorizado a PF a acessar os dados dessa investigação, que alcança a Go Up Entertainment — a produtora que fez as gravações de “Dark Horse”, também de Karina Gama — e contratos assinados com a Prefeitura de São Paulo.

A polícia paulista já havia feito buscas em junho, tanto em endereços ligados à produtora quanto numa secretaria municipal. O inquérito aberto lá apura possível irregularidade em contrato da Prefeitura e quer saber se parte do dinheiro público terminou nas mãos da equipe do longa-metragem. O contrato sob suspeita vale R$ 108 milhões. Foi firmado entre a gestão de Ricardo Nunes (MDB), prefeito da capital, e o Instituto Conhecer Brasil, que tem Karina Gama na presidência, e previa levar internet sem fio gratuita a comunidades carentes da cidade.

Há, por fim, um fio ligando essa investigação à crise instalada no comando da própria Polícia Federal. Ao mandar Andrei Rodrigues de volta à direção-geral da corporação, na quarta-feira 9, Flávio Dino citou justamente o estrago que o afastamento do delegado vinha causando no andamento das apurações deste caso.