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Eleições 2026

Quatro candidatos à Presidência querem banir as bets, setor que pagou R$ 12,2 bilhões em tributos

Nenhum deles diz de onde viria a receita perdida; Cury quer taxar acima de 50% e Caiado defende proibir a publicidade das apostas
Agora RN
09/09/2026 | 18:46

Quem disputa a Presidência não fala a mesma língua quando o assunto são as casas de apostas. As propostas vão de proibir os sites a taxá-los mais pesado, passando por apertar as regras de publicidade. Quatro candidatos defendem banir as chamadas bets — sem dizer, contudo, de onde viria o dinheiro que o setor deixaria de entregar. Só de tributo, as bets recolheram R$ 12,2 bilhões ao governo no ano passado. Há ainda quatro presidenciáveis que sequer trataram do assunto em seus programas.

Lula: manter o que existe, mas com uma porta aberta

Em campanha pela reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propõe conservar e aperfeiçoar os mecanismos que o próprio governo já pôs de pé. O programa petista fala em controlar gastos, acompanhar o endividamento das famílias, mexer nas regras de concessão de crédito e ampliar o atendimento em saúde mental a quem joga de forma compulsiva.

Mãos seguram celular com aplicativo de apostas (bets) aberto
Imagem ilustrativa de aposta online feita por celular

Só que o presidente já sinalizou que pode endurecer. Depois de receber representantes de movimentos que fazem campanha contra os jogos de azar, prometeu avaliar “uma decisão mais drástica”. “Eu pessoalmente acabava com as bets, eu acho que é um mal da sociedade”, afirmou — ressalvando que antes precisaria ouvir os diferentes setores envolvidos.

Flávio Bolsonaro mira o endividamento

Flávio Bolsonaro (PL) votou a favor da regulamentação quando era senador. Sua proposta agora se concentra no endividamento das famílias: impedir que dinheiro de programa social vá parar em aposta, medida que já vale para quem recebe Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada. Ele também quer se valer da rede da Caixa Econômica Federal para levar educação financeira e crédito à população.

“A proposta tem como uma de suas principais diretrizes atacar o que empurra as famílias para a dívida, alertando que as apostas online consomem o dinheiro do mês antes mesmo de ele chegar em casa, corroendo a renda da população mais vulnerável”, diz o material enviado pela campanha do senador.

Caiado quer a publicidade fora do ar

Ronaldo Caiado (PSD) promete regra mais dura e quer barrar a propaganda dessas empresas na comunicação de massa e também nas redes sociais. Para ele, o superendividamento provocado pelas apostas é caso de saúde pública. O candidato diz ter combatido a liberação do setor durante sua passagem pelo Senado — vale registrar, porém, que a lei de 2018, a que legalizou as apostas de quota fixa, passou com apoio de todos os partidos, o então Democratas incluído, legenda em que ele figurava entre os líderes.

Os que querem banir

Renan Santos (Missão) não pôs o assunto no programa, mas a campanha dele informou que defende proibir as plataformas por inteiro. Não detalhou como faria isso, nem de onde sairia a receita que substituiria a do setor.

PSTU, PCB e UP — legendas de Hertz Dias, Edmilson Costa e Samara Martins, nessa ordem — também querem o fim das apostas online. Os dois primeiros vão além e propõem expropriar os ativos das empresas; já a UP trata a atividade como um crime contra a economia popular. Nenhuma dessas candidaturas explica de que maneira cobriria o rombo fiscal que o banimento abriria.

Cury quer taxar acima de 50%

Augusto Cury (Avante) vai por outro caminho: quer levar a tributação das empresas para além dos 50%. Numa entrevista à TV Globo, ele pôs lado a lado a alíquota de 13% que incide sobre a receita bruta das plataformas e o que se cobra dos alimentos. A conta, porém, ignora outros impostos federais e municipais que as operadoras pagam — um cálculo da LCA, consultoria contratada por entidades do setor, chega a uma carga total equivalente a 33% da receita neste ano de 2026.

Wilson Grassi (Democrata) prefere investigar: quer apurar possível lavagem de dinheiro nas casas de apostas e mandar o que for arrecadado para a segurança pública. A lei atual, aliás, já manda para a segurança 13,6% do que as plataformas recolhem em contribuição social.

De Romeu Zema (Novo) e de Rui Costa Pimenta (PCO) não veio proposta para o setor, tampouco resposta aos contatos da reportagem.

O tamanho do mercado

A legalização das apostas veio em 2018, ainda no governo Michel Temer; a regulamentação, já na gestão Lula. O mercado regulado entrou em operação em 2025 e hoje reúne 85 empresas autorizadas.

Os números do primeiro ano dão a dimensão do que está em disputa: os apostadores depositaram R$ 220,6 bilhões, as plataformas devolveram R$ 183,7 bilhões em prêmios e o faturamento fechou em R$ 36,9 bilhões. Somados aos tributos, há ainda R$ 4,43 bilhões que o setor recolheu em contribuição social.