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Cultura

Leitura digital chega a quase metade dos brasileiros, e o celular é a porta de entrada

Pesquisa com 3 mil pessoas mostra que 25,3% acessaram livro digital, mas revela desconhecimento amplo sobre o que é ou não pirataria
Agora RN
10/09/2026 | 16:06

Quase metade dos brasileiros já teve algum tipo de contato com leitura digital no último ano. É o que mostra um levantamento inédito, batizado de Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro, feito pela NIQ BookData com viabilização do Skeelo e apresentado na Biblioteca Nacional, em Brasília. Foram ouvidos aproximadamente 3 mil brasileiros a partir dos 10 anos de idade, vindos de várias regiões e de várias faixas socioeconômicas. Trabalha-se com margem de erro de 3,5% e confiança de 95%.

A definição de quem conta como leitor digital, no estudo, é generosa. Entra quem, nos últimos 12 meses, acessou texto de leitura e de informação — notícia, blog, fórum, newsletter. Entra quem acessou livro digital, e-book e audiolivro incluídos. E entra quem acessou história seriada, fanfic, quadrinho ou mangá em formato digital.

Mão segura leitor digital com a capa de um livro na tela, ao ar livre
E-books e audiolivros foram acessados por 25,3% da população brasileira no período analisado — José Aldenir

O resultado que sai daí sugere um mercado bem maior do que se imaginava e sustenta uma conclusão que interessa ao setor editorial: o livro digital não vem necessariamente para substituir o impresso. Em muitos casos ele acaba funcionando como porta de entrada para gente que até então não lia.

Em todos os formatos analisados, o celular é por onde se chega ao conteúdo. E entre esses conteúdos quem lidera é o vídeo, alcançando 57,2% da população. Vêm depois a mensagem curta e a conversa em rede social, somando 45,8%, e os textos que circulam em rede social e em aplicativo de mensagem, com 32,2%. O texto voltado propriamente à leitura aparece com 30,8%. Já o livro digital foi acessado por 25,3% dos brasileiros. História seriada, fanfic, quadrinho e mangá em formato digital ficam com 18% e só superam outras atividades quando o cotejo se dá com os conteúdos de maior consumo — e jogo e podcast completam esse universo de entretenimento digital.

O retrato de quem lê no digital tem cor, tem classe e tem região. Quem lê no digital está sobretudo na classe C, que sozinha responde por 46% desse grupo. Depois vêm a B, com 29%, e a D, com 18%; à classe A cabem 7% do total. Já entre quem usa leitor eletrônico, do tipo e-reader, a conta se inverte — ali as classes A e B somam 55,5%. Mulheres são maioria desse público, com 56%. Na composição por raça: brancos são 50%, pardos 37%, pretos 11%, amarelos 2% e indígenas 0,2%. Espalhados pelo território, esses leitores acompanham de modo geral a própria distribuição da população brasileira, com predominância do Sudeste, seguido de Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte. Na idade, a faixa dos 35 aos 44 anos representa 22% desse público, e a turma dos 25 aos 34 responde por outros 20%.

Mesmo com os formatos digitais avançando, ler ainda é só o oitavo passatempo preferido dessa gente — perde para televisão, descanso, esporte, vídeo, música, streaming e rede social. O texto costuma chegar por dois caminhos principais: os portais de notícia e os veículos de mídia, ao lado do próprio e-book. Entre quem já lê nesse formato, o hábito mostra alguma regularidade: a maioria afirma acessar conteúdo numa frequência que vai de uma vez por semana a todos os dias.

Quando se olha só para e-book e audiolivro, o perfil muda pouco, mas certas diferenças se acentuam. As mulheres sobem para 58% do público; a faixa de 25 a 44 anos abriga 47% dos leitores. A classe C segue na frente, agora com 40%, e a B vem logo atrás, com 36% — a D fica com 15% e a A, com 9%. Nesse recorte os brancos são 52%, os pardos 35% e os pretos 10%. O gênero mais consumido nos dois formatos é a ficção adulta, e atrás dela aparecem o livro científico, o técnico e o profissional, mais a não ficção adulta e a Bíblia em versão digital. Os dados conversam com outras pesquisas recentes do mercado editorial brasileiro, levantamentos que vêm apontando tanto o crescimento da ficção quanto a participação maior de mulheres jovens, pretas e pardas entre as compradoras de livro.

Junto com esse avanço cresce algo que tira o sono do mercado editorial: a pirataria. Quase 49% dos leitores de e-book e audiolivro afirmam ter baixado ou acessado conteúdo de graça em site, aplicativo ou link que não era loja nem biblioteca oficial. Outros 41,5% disseram ter recebido arquivo digital compartilhado por amigo ou por familiar — um PDF, uma imagem, um link. Os dados, é preciso dizer, não permitem determinar quantos desses acessos eram de fato ilegais.

O que a pesquisa encontrou, e isso é claro, foi desconhecimento amplo sobre direito autoral. Cerca de 67% dos entrevistados admitiram, total ou parcialmente, não ter certeza sobre a legalidade ou a autorização de um livro digital. E 68% presumem que um livro recebido por WhatsApp ou por link é permitido. Mais de 60% acham difícil identificar se um PDF respeita direito autoral, e dizem que nunca receberam orientação clara a respeito disso. A maioria trabalha ainda com outra presunção: se o livro está disponível na internet, alguém deve ter autorizado que fosse distribuído.

Facilidade de acesso e falta de conhecimento aparecem, no levantamento, como os dois principais fatores que levam o leitor a consumir livro por imagem, por PDF ou por link compartilhado. E há um dado que contraria a expectativa: o acesso a conteúdo ilegal pesa proporcionalmente mais entre gente da classe A.

Do outro lado da conta estão os que não leem no digital, e a barreira ali parece menos tecnológica do que comportamental. Preferir assistir a vídeo na internet é o que responde por 26,8% das respostas; usar rede social para conversa curta, por 23,2%. E 17,8% seguem preferindo mesmo o livro impresso, o de papel.

Há espaço, ainda assim, para ampliar esse público. Metade de quem não lê diz que toparia experimentar e-book se o acesso viesse de graça. E no audiolivro o potencial cresce: 56% se mostram interessados nessa hipótese.

O leitor que sai desses números já está no digital sem ter largado o papel. O que vai mudando, devagar, é por onde se entra na leitura — ela pode estar na tela do celular, num arquivo baixado, num áudio ouvido ao longo do dia ou numa história que apareceu no meio do fluxo das redes.