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Editorial

O RN diante de uma nova era energética

Margem Equatorial abre oportunidade para o RN construir uma estratégia de transição e desenvolvimento
Agora RN
28/08/2026 | 00:21

A descoberta de indícios de petróleo no poço de Morpho, em águas ultraprofundas do Amapá, abre uma nova etapa na discussão sobre o desenvolvimento da Margem Equatorial. A faixa marítima, que se estende do litoral amapaense ao Rio Grande do Norte, surge como possibilidade de reposição das reservas nacionais justamente quando se projeta que a produção do pré-sal atingirá o pico na próxima década.

Para o Rio Grande do Norte, a descoberta tem um significado que ultrapassa a geografia. O Estado conhece o poder transformador do petróleo e também os efeitos de seu declínio. A Bacia Potiguar começou a ganhar forma econômica com a descoberta de Ubarana, em 1973, na plataforma continental. Em 1979, a presença de óleo em um poço perfurado em Mossoró abriu a fase terrestre da exploração. Nas décadas seguintes, a atividade criou empregos, fornecedores, serviços técnicos, infraestrutura logística e receitas públicas no Oeste, no Vale do Açu e na Costa Branca.

Mapa das áreas de exploração de petróleo na Margem Equatorial brasileira
Margem Equatorial concentra novas perspectivas para o setor de petróleo e gás — Divulgação/Petrobras

O auge ocorreu no fim dos anos 1990. Em novembro de 1998, a Bacia Potiguar produziu quase 102 mil barris de petróleo por dia. Entre 1998 e 2000, a extração estadual ficou acima de 30 milhões de barris anuais, segundo levantamentos históricos da produção. O gás natural chegou a aproximadamente 3,6 milhões de metros cúbicos diários em outubro de 2000. Era uma economia regional organizada em torno dos campos, das bases operacionais e da circulação de renda promovida pela indústria.

A maturidade dos reservatórios e a redução dos investimentos mudaram esse quadro. Em dezembro de 2012, o Estado ainda produzia 70,6 mil barris de óleo equivalente por dia. Em 2015, eram cerca de 64 mil. Em junho de 2026, o volume havia caído para 26,64 mil barris de petróleo e 1,03 milhão de metros cúbicos de gás natural diariamente, equivalentes a 33,11 mil barris de óleo por dia. A produção vinha de 65 campos, muitos deles maduros e dependentes de técnicas de recuperação para prolongar sua vida útil.

Essa redução atingiu também as finanças públicas. Estado e municípios receberam cerca de R$ 621 milhões em royalties em 2025. Nos cinco primeiros meses de 2026, os repasses somaram R$ 237,4 milhões, queda de 14,5% perante o mesmo período do ano anterior, conforme levantamento sobre as compensações financeiras. A oscilação mostra por que receitas petrolíferas devem financiar transformação econômica, e não despesas permanentes que se tornam insustentáveis quando a produção ou o preço do barril recuam.

A próxima rodada de concessões pode iniciar uma reversão. As áreas terrestres potiguares colocadas em disputa somam 1.023,442 quilômetros quadrados, espalhados por municípios do Oeste, do Vale do Açu e do litoral Norte. A sessão pública está prevista para 7 de outubro e poderá incluir 495 blocos em várias bacias do País, segundo o cronograma da oferta. Na Margem Equatorial, estão previstos US$ 2,5 bilhões e 15 poços entre 2026 e 2030, de acordo com o plano de exploração anunciado.

O RN possui vantagens para aproveitar uma eventual retomada. Mossoró conserva mão de obra, prestadores de serviços e conhecimento acumulado. Guamaré reúne instalações de processamento e escoamento. Areia Branca dispõe de estrutura portuária, e o aeroporto mossoroense pode apoiar operações. Estimativas setoriais indicam que uma nova expansão poderia elevar a produção para mais de 100 mil barris diários, fazer os empregos passarem de 6 mil para 10 mil e atrair entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões anuais durante uma década. São projeções, não garantias, e dependem de competitividade, regras previsíveis e controle ambiental rigoroso.

O futuro potiguar, porém, não deve ser uma repetição do passado. O petróleo é finito, tem alta emissão de carbono e continuará sujeito a ciclos internacionais. Sua renda precisa construir a economia que sobreviverá ao próprio petróleo. Isso significa direcionar royalties para educação técnica, ciência, saneamento, infraestrutura, inovação industrial e recuperação ambiental.

Nesse ponto, o Estado possui uma combinação rara. Ao lado do petróleo e do gás, tornou-se uma potência das energias renováveis. Em 2024, superou 10 gigawatts de capacidade eólica instalada, distribuídos por mais de 300 parques e milhares de aerogeradores. O volume equivale a várias vezes o consumo médio potiguar. Estudos estimam potencial terrestre próximo de 94 gigawatts com torres de 200 metros, além da perspectiva ainda maior no mar. A geração solar também avança por meio de grandes usinas, sistemas empresariais e painéis residenciais.

A abundância, entretanto, já encontra limitações na transmissão. Cortes de geração por falta de capacidade da rede mostram que produzir eletricidade não basta. São necessárias novas linhas, armazenamento, portos preparados, indústria de equipamentos e consumidores de grande porte. Hidrogênio de baixo carbono, combustíveis sintéticos, data centers e indústrias eletrointensivas podem converter vento e sol em investimento, emprego e arrecadação.

A Margem Equatorial oferece ao Rio Grande do Norte uma oportunidade de transição, não uma licença para adiar mudanças. O petróleo pode financiar a infraestrutura da nova economia energética, enquanto eólica e solar reduzem a dependência de uma fonte que inevitavelmente se esgota. Se souber unir essas duas eras, o Estado poderá deixar de ser apenas produtor de recursos naturais para se tornar centro industrial, tecnológico e logístico da energia brasileira.