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EUA

EUA trocam porta-aviões após 250 dias em Ormuz

USS George Washington substituirá o Abraham Lincoln após missão prolongada marcada por denúncias sobre condições de trabalho, suprimentos e saúde mental
Por O Correio de Hoje
17/08/2026 | 13:04

Os Estados Unidos enviarão o porta-aviões USS George Washington ao Oriente Médio para substituir o USS Abraham Lincoln, mobilizado há mais de 250 dias. A troca ocorre em meio à continuidade da guerra com o Irã e ao aumento das denúncias de familiares e parlamentares sobre as condições de trabalho, a escassez de suprimentos e a saúde mental dos mais de 5 mil militares embarcados.

O George Washington, baseado no Japão e capaz de transportar cerca de 5 mil marinheiros e até 90 aeronaves, deixou o Vietnã e atravessa o Estreito de Malaca em direção ao Oceano Índico. A embarcação deverá assumir a operação no Mar da Arábia, embora a Marinha ainda não tenha informado quando o Abraham Lincoln será liberado para retornar aos Estados Unidos.

Porta-aviões USS George Washington navega acompanhado por embarcações menores, com militares reunidos no convés
Porta-aviões Abraham Lincoln vão retornar aos EUA devido ao cansaço extremo dos soldados, mas os EUA vão enviar o USS George Washington em substituição - Foto: reprodução / iyou tube

Segundo autoridades americanas, a substituição fazia parte de uma rotação previamente programada. A transferência, porém, ganha relevância após o Abraham Lincoln superar 250 dias de missão e permanecer mais de 200 dias sem escala em um porto, o maior período contínuo no mar para um porta-aviões americano em tempos recentes. O navio partiu de San Diego em 21 de novembro de 2025 para uma missão inicialmente prevista para sete meses.

O deslocamento do George Washington também deixará temporariamente o Pacífico sem um porta-aviões americano mobilizado de forma permanente, num período de ampliação da presença militar chinesa na região. A decisão expõe a pressão da guerra contra o Irã sobre a capacidade dos Estados Unidos de manter forças navais simultaneamente no Oriente Médio e no Indo-Pacífico. Associated Press

A extensão da missão do Abraham Lincoln passou a ser questionada no Congresso após relatos de jornadas de 12 a 16 horas, poucos dias de descanso e problemas em banheiros, lavanderias, chuveiros e sistemas de água quente. Familiares também apontaram escassez de alimentos, produtos de higiene, interrupções na entrega de correspondências e deterioração do moral da tripulação.

O senador democrata Richard Blumenthal, integrante da Comissão das Forças Armadas, enviou uma carta ao secretário de Defesa, Pete Hegseth, e ao comando da Marinha para pedir informações sobre cada prorrogação da missão. O parlamentar solicitou que o governo identifique quem autorizou as extensões, apresente as justificativas operacionais e detalhe os problemas de qualidade de vida encontrados no navio.

As preocupações aumentaram depois que um marinheiro caiu no mar e foi resgatado. As circunstâncias do episódio não foram esclarecidas. Veículos especializados em assuntos militares, como Navy Times e Stars and Stripes, publicaram relatos de familiares sobre outras tentativas de tripulantes de se lançar da embarcação e mensagens associadas a pensamentos suicidas.

Mais de 200 familiares participaram de reuniões em San Diego com o secretário interino da Marinha, Hung Cao, e outros integrantes do comando naval. Durante um dos encontros, o vice-almirante Joseph Cahill reconheceu os efeitos da missão prolongada. “Nós ouvimos vocês com muita clareza sobre o impacto que isso tem nas famílias, nos integrantes das Forças Armadas e na capacidade de longo prazo de mantermos e sustentarmos a saúde de nossas forças”, afirmou.

A Marinha informou não ter identificado aumento de pensamentos ou tentativas de suicídio entre os militares do Abraham Lincoln. Em nota, afirmou que profissionais religiosos, médicos e de saúde mental estão disponíveis para avaliar os tripulantes. O comando também sustenta que o acompanhamento interno não encontrou relação direta entre a duração da missão e ocorrências de autolesão.

Hegseth classificou os relatos sobre as condições precárias como “completamente distorcidos”. “Garantimos que cada navio, cada tripulação e cada capitão tenham tudo o que podemos oferecer a qualquer momento. Algumas missões são mais longas do que outras”, declarou durante visita ao Panamá. O secretário afirmou ter respeito pelos militares que trabalham em condições adversas e com menos escalas portuárias.

As famílias mantêm as cobranças. Annabelle Loma, mulher de um marinheiro que teria tentado se lançar ao mar, afirmou que o marido teme receber uma baixa desonrosa e perder a carreira construída ao longo de 13 anos. O deputado democrata Mike Levin, da Califórnia, também relatou denúncias de chuveiros com mofo, vasos sanitários quebrados, falta de água quente e refeições reduzidas.

A mobilização ocorre enquanto Washington e Teerã continuam trocando ameaças relacionadas à guerra e ao controle do Estreito de Ormuz, rota responsável pelo transporte de parcela relevante do petróleo comercializado mundialmente. A permanência de um grupo de ataque de porta-aviões na região permite aos Estados Unidos manter aeronaves, sistemas de defesa e capacidade de ataque próximos ao território iraniano.

A pressão operacional coincide com problemas de infraestrutura em bases americanas no Pacífico. Inspeções do órgão de fiscalização do Pentágono encontraram corrosão, mofo, amianto, infiltrações, rachaduras e tetos em processo de desabamento em 11 instalações. Na Base Aérea de Kadena, no Japão, pelo menos 243 residências foram desocupadas por deterioração do concreto, enquanto 139 foram afetadas por quedas de partes dos tetos.

A combinação de missões prolongadas, manutenção adiada e instalações deterioradas amplia o custo de sustentação da presença militar americana. A chegada do George Washington deve permitir o retorno do Abraham Lincoln, mas não elimina o debate sobre a capacidade da Marinha de preservar pessoal, equipamentos e prontidão enquanto mantém operações simultâneas em diferentes regiões.