O trecho do rio Danúbio que atravessa a Sérvia atingiu nesta sexta-feira 14, o nível mais baixo já registrado. A redução da vazão expôs bancos de areia, deixou embarcações encalhadas e trouxe novamente à superfície destroços de navios de guerra alemães afundados durante a Segunda Guerra Mundial.
Os cascos enferrujados reapareceram nas proximidades de Prahovo, no leste da Sérvia, depois de permanecerem submersos por cerca de oito décadas. A região passou a receber visitantes interessados nas embarcações, que integravam a frota alemã do Mar Negro e foram afundadas durante a retirada das forças nazistas diante do avanço soviético.

“Isso literalmente nunca aconteceu antes; esses destroços para os quais estamos indo agora nunca ficaram visíveis dessa forma. Eles sempre estiveram completamente submersos; o que estamos vendo agora é totalmente sem precedentes”, afirmou à Reuters o pescador Ljubisa Karalic, morador de Prahovo.
Parte dos navios ainda pode conter munições e explosivos, o que dificulta a remoção e restringe a navegação. O governo sérvio realizou operações anteriores para retirar alguns destroços, mas dezenas de embarcações permanecem no leito do rio. A queda do nível da água tornou estruturas antes ocultas mais acessíveis, mas também ampliou os riscos de acidentes.
Mais ao norte, em Novi Sad, pequenas embarcações atracadas em marinas ficaram apoiadas sobre o leito exposto. O problema afeta ainda o transporte de cargas, porque os navios comerciais precisam reduzir o peso transportado para navegar em trechos mais rasos. O Danúbio é uma das principais rotas de ligação entre a Europa Central e o Mar Negro.
A seca decorre de uma combinação de pouca chuva e sucessivas ondas de calor no verão europeu. Segundo o programa Copernicus, da União Europeia, Danúbio, Reno, Loire e Pó atingiram níveis mínimos históricos em agosto. A redução da vazão interfere no transporte fluvial, na agricultura, no abastecimento e na geração de energia. Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia
A temperatura da água do Danúbio na Sérvia oscilou em torno de 28°C, próxima da máxima histórica. A combinação entre calor e baixo volume de água cria condições para a proliferação de bactérias e outros microrganismos, ao mesmo tempo que reduz a concentração de oxigênio disponível para peixes e demais espécies.
“Foi quebrado um recorde em relação à vazão do Danúbio. Esperamos que isso represente o mínimo, já que há previsão de chuva para trechos a montante, o que deve ajudar a melhorar a situação”, afirmou Jelena Jerinic, do Serviço Hidrometeorológico da Sérvia.
Segundo ela, “as altas temperaturas da água, juntamente com o baixo volume, aceleram a proliferação de microrganismos e bactérias, ao mesmo tempo que reduzem os níveis de oxigênio dissolvido”. O quadro ameaça a biodiversidade e pode produzir efeitos que se prolonguem mesmo depois da recuperação do nível do rio.
A redução da vazão também pressiona o sistema energético europeu. Usinas térmicas e nucleares utilizam a água dos rios em seus processos de resfriamento e podem ser obrigadas a diminuir a produção quando a temperatura sobe ou o volume disponível cai. A Romênia chegou a interromper a operação de seu último reator nuclear em atividade diante da queda do Danúbio.
A previsão de chuva em áreas localizadas a montante pode elevar a vazão nos próximos dias, mas não elimina os efeitos acumulados da seca. O reaparecimento dos navios transformou uma consequência do evento climático em atração turística, enquanto expõe as limitações da navegação e os riscos ambientais enfrentados pelo segundo maior rio da Europa.