O Rio Grande do Norte esconde em seu passado um protagonismo que muitos de seus próprios moradores desconhecem. A capital do estado, que já foi um ponto estratégico na história da aviação mundial e na Segunda Guerra Mundial, enfrenta o desafio de reconectar a população, em especial as novas gerações, com sua história. Em Parnamirim, o Centro Cultural Trampolim da Vitória (CCTV) busca contar esse protagonismo.
Na antiga base do Aeroporto Internacional Augusto Severo, o CCTV tem um acervo de imagens e objetos históricos que resgatam a história da aviação desde os anos 1920, quando os europeus e os norte-americanos começaram a chegar a terras potiguares por meio do ar. É o que conta o historiador Ricardo Maciel, orientador educacional no CCTV.

“Temos três brasileiros na história da aviação mundial: Santos Dumont, Augusto Severo e padre Bartolomeu de Gusmão. Se você, em qualquer lugar do mundo, for pesquisar a história da aviação mundial, vai ter esses três brasileiros. Mas o potiguar não conhece essa história”, diz Ricardo. Na visão dele, o desconhecimento sobre o contexto local começa na educação básica: o RN não protagoniza os livros didáticos.
Ricardo diz que o CCTV, criado pela Prefeitura de Parnamirim em parceria com a Base Aérea de Natal em 2020, pretende melhorar a sua estrutura e criar novos espaços, como auditórios, mas precisa de verba para essa ampliação e para expandir o acervo. De acordo com ele, 25 mil pessoas visitam o memorial anualmente, em passeios que duram cerca de uma hora.
A luta é constante para conseguir apoio financeiro para iniciativas que aumentariam a visitação do espaço, mas esse não é o foco do centro cultural: “Eu não me importo somente com a visitação. Eu estou preocupado que as pessoas conheçam a nossa história”, frisa Ricardo.

Durante o passeio, que mais parece uma aula de história, ele explica que a história da aviação em solo potiguar começou antes da Segunda Guerra Mundial. Iniciou com a francesa Companhia Générale Aéropostale (hoje Air France) e o correio aéreo do pós-Primeira Guerra. A posição geográfica privilegiada fez com que o Rio Grande do Norte se tornasse a porta de entrada para a aviação na América do Sul. Em Parnamirim, o primeiro avião pousou em 1927, antes mesmo de a cidade ter habitantes.
Ricardo explica que, após o ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941, os militares americanos chegaram em Natal. A cidade se transformou na maior base aérea americana fora dos Estados Unidos e conviveu com a influência dos costumes americanos – chicletes, calças jeans e consumo de Coca-Cola são algumas dessas heranças.
O pesquisador diz que a base operava em média 300 voos por dia, e a população de Natal, de cerca de 40 mil pessoas, conviveu com cerca de 10 mil americanos. Também é possível ver em fotografias da época jogos de beisebol, bandas de jazz e postos de troca, que funcionavam como casa de câmbio durante o dia e um bar com hambúrgueres e cerveja à noite.
Cooperação Vargas-Roosevelt
O encontro do presidente brasileiro Getúlio Vargas com o presidente norte-americano Franklin Roosevelt em 28 de janeiro de 1943, conhecido como a Conferência do Potengi, ocorreu depois que os países já cooperavam na Segunda Guerra Mundial.
“O Roosevelt foi um cara mais esperto, que disse para o Vargas: vamos fazer o seguinte, vamos trabalhar pelo Brasil, para o Brasil crescer, e com isso você vai ficar melhor na fita. Nós também ficamos. A gente se ajuda e salva o mundo dessa barbárie [os países do bloco rival, o Eixo]. Eles já conversavam antes mesmo da Conferência do Potengi”, lembra Ricardo Maciel.

O historiador Henrique Lucena explica que o encontro consolidou “a parceria estratégica entre Brasil e EUA: Vargas confirmou o envio da Força Expedicionária Brasileira e o fornecimento de insumos, enquanto Roosevelt assegurou apoio técnico e financeiro que viabilizaria a industrialização de base, como a criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Assim, pode-se dizer que foi a partir de Natal que o Brasil iniciou um novo ciclo de inserção internacional e de modernização econômica”.
Esse encontro teve diversas curiosidades, diz Lucena. “Vargas viajou em sigilo, deixando o filho Getulinho hospitalizado em São Paulo; Roosevelt chegou em um hidroavião Boeing 314 ‘Dixie Clipper’, tornando-se o primeiro presidente dos EUA a cruzar o Atlântico em missão oficial aérea – um feito extraordinário, já que ele sofria com a mobilidade limitada causada pela poliomielite”. Além disso, os presidentes conversaram em francês.
Trampolim da Vitória
Devido à sua posição estratégica, Natal foi apelidada de “Trampolim da Vitória”, um nome que simbolizava o ponto de partida dos aviões aliados em direção à Europa. Por ser o ponto mais próximo das Américas em relação à África e Europa, a cidade se tornou base para o transporte de tropas e suprimentos. Ricardo explica que o nome faz referência ao salto sobre o oceano: “Os Aliados passaram por aqui para saltar o Atlântico e irem buscar a vitória na Europa, na Ásia”.
“A ideia disso aqui é ser um museu em que a gente conte essa história toda. Tem muito mais coisas para agregar, ainda tem um monte de história. E a gente não tem todas as fotos ampliadas. Tudo isso, infelizmente, é caro”, diz. O CCTV também é um memorial da história de Parnamirim.
“A história da cidade vai se misturar com a história da aviação, quando a aviação chega, pode-se dizer, até à América do Sul, quando ela chega ao Brasil. Uma coisa se funde com a outra”. Daqui a dois anos fará um século desde que o primeiro avião pousou em Parnamirim. O CCTV, segundo o orientador educacional, planeja comemorar a data, mas precisa de verba.
Outro ponto de memória sobre a Segunda Guerra no RN é o Complexo Cultural Rampa, em Santos Reis, às margens do rio Potengi, mas Ricardo diz acreditar que o espaço poderia ter uma melhor organização para preservar a história. Sobre a aviação dos anos 1920 e 1930 no rio Potengi, ele afirma que lá se encontrava “a maior base aeronaval que se tinha aqui no Hemisfério Sul, a Naval Air Station Natal”.
Os norte-americanos deixaram a capital potiguar no final dos anos 1940, deixando aqui uma história ainda pouco explorada e conhecida.
Esta é a quarta reportagem da série “Retratos da nossa história”, que resgata pontos fundamentais da cultura e da história de Natal e do Rio Grande do Norte e busca entender como o patrimônio público local é tratado.