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Terremoto

Terremoto deixa ao menos 250 mortos na Colômbia

Equipes procuram sobreviventes após terremoto de magnitude 7,4 deixar ao menos 250 mortos; uso de paredes finas de concreto amplia debate sobre segurança das construções
Por O Correio de Hoje
13/08/2026 | 12:58

Equipes de emergência, militares e moradores mantêm as buscas por sobreviventes do terremoto de magnitude 7,4 que atingiu o oeste da Colômbia na manhã de segunda-feira, 10. O número de mortos chegou a pelo menos 250 nesta quarta-feira 12, enquanto milhares de pessoas ficaram feridas ou continuavam desaparecidas, de acordo com balanços divulgados por autoridades e organismos de ajuda.

O epicentro foi localizado nas proximidades de San José del Palmar, no departamento de Chocó, região marcada pela pobreza, pela dificuldade de acesso e pela atuação de grupos armados. Os danos, porém, alcançaram centros urbanos como Cali, Pereira e Manizales, onde edifícios residenciais, hospitais e estruturas públicas desabaram ou foram interditados.

Equipes de emergência com capacetes e equipamentos de proteção transportam uma pessoa em uma maca durante operação de resgate
Bombeiros trabalham de forma incansável na Colômbia e número de mortos no terremoto não para de subir - Foto: reprodução / iyou tube

A divergência entre os balanços ocorre porque os números estão sendo atualizados por diferentes governos locais e equipes de resgate. As dificuldades de comunicação e deslocamento em Chocó também retardam a avaliação dos estragos. Autoridades esperam que a quantidade de vítimas aumente à medida que os socorristas avancem nos locais mais afetados.

Mais de 200 pessoas permaneciam desaparecidas, segundo estimativas das equipes que trabalham nos escombros. Somente em Cali, dezenas de construções desabaram e ao menos 37 pessoas haviam sido retiradas com vida. Em Pereira, uma mulher de 32 anos foi resgatada depois de permanecer soterrada.

O Serviço Geológico Colombiano registrou cerca de 130 réplicas desde o abalo principal, com magnitudes entre 0,6 e 4,8. Os tremores secundários aumentam o risco de novos desabamentos e obrigam as equipes a interromper as operações em determinados momentos.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) informou que o terremoto ocorreu às 7h34, no horário local, a aproximadamente cinco quilômetros de San José del Palmar. A agência calculou uma profundidade de 107 quilômetros e atribuiu o evento principalmente a uma falha de deslizamento lateral, na qual dois blocos da crosta terrestre se deslocam horizontalmente.

A profundidade intermediária permitiu que as ondas sísmicas fossem sentidas em uma área extensa, inclusive em regiões da Venezuela, do Equador e do Panamá. Na Colômbia, o movimento do solo atingiu tanto cidades próximas ao epicentro quanto centros urbanos localizados a distâncias maiores.

O governo colombiano declarou estado de calamidade pública e instalou em Bogotá um posto de comando para coordenar resgates, distribuição de alimentos, atendimento médico e levantamento dos prejuízos. Militares foram enviados às áreas atingidas, enquanto hospitais receberam reforços diante do aumento da demanda.

Além da magnitude do terremoto, pesquisadores apontam que as características dos edifícios contribuíram para a dimensão dos danos. Uma prática comum na construção residencial colombiana é a utilização de paredes de concreto armado com espessura entre sete e dez centímetros e apenas uma camada de aço.

Essas paredes têm a função de resistir às forças laterais produzidas por ventos e terremotos. Quando possuem pouca espessura e quantidade reduzida de aço, porém, podem concentrar a tensão em uma única fissura. A ruptura das barras de reforço pode causar a perda da capacidade de sustentação e levar ao colapso da estrutura.

O uso de telas de arame eletrossoldadas também gera preocupação porque esse material pode se romper rapidamente quando submetido a deformações. A menor espessura dificulta ainda a instalação do chamado confinamento, composto por peças de aço colocadas nas extremidades das paredes para reduzir o esmagamento do concreto.

Uma pesquisa realizada em 2018 com nove edifícios de Cali identificou que 90% possuíam paredes com apenas uma camada de reforço. Em 30% das construções examinadas, a espessura era igual ou inferior a dez centímetros.

Ensaios realizados por pesquisadores de universidades colombianas no Laboratório de Engenharia Sísmica e Dinâmica Estrutural da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, também indicaram baixa resistência dessas estruturas a tremores de maior intensidade. Mesmo quando havia aço suficiente, a espessura limitada reduzia a capacidade de deformação sem colapso.

O problema não está restrito à Colômbia. Técnicas semelhantes foram utilizadas em outros países da América Latina e também eram admitidas em normas de construção da Austrália. As regras australianas foram revistas em 2018, depois que o terremoto de Christchurch, na Nova Zelândia, ampliou o debate internacional sobre paredes finas de concreto.

Em Christchurch, um abalo de magnitude 6,3 matou 185 pessoas em 2011. Edifícios de concreto projetados conforme normas posteriores aos anos 1980 tiveram melhor desempenho. Algumas construções mais antigas, porém, desabaram devido à baixa quantidade de aço e à concentração de tensão em paredes estreitas.

Na Colômbia, a reconstrução deverá exigir não apenas recursos para repor moradias e equipamentos públicos, mas também uma revisão das técnicas utilizadas no mercado imobiliário. O custo da recuperação ainda não foi calculado, mas milhares de casas foram destruídas ou danificadas.

A tragédia também se soma aos terremotos que atingiram a Venezuela em junho, deixando milhares de mortos e dezenas de milhares de edifícios afetados. Especialistas afirmam que ainda é cedo para estabelecer uma relação direta entre os eventos, embora a movimentação de uma falha possa transferir tensão para sistemas próximos.

Entre os sobreviventes dos dois desastres estão os irmãos venezuelanos Winder e Deivi Delfín, de 15 e 17 anos. Eles perderam a mãe, o irmão mais novo e a avó nos terremotos de junho e se mudaram para Cali, onde o pai, Deivid Delfín, trabalha como barbeiro.

Na manhã de segunda-feira, os adolescentes saíram correndo da casa ao perceberem o novo tremor. O pai estava fora e voltou para procurá-los. “Comecei a chorar e tudo mais, porque fiquei com medo por causa de tudo o que eu tinha vivido e do que meus filhos tinham vivido. Não quero que nada aconteça com meus filhos”, relatou.

Depois do abalo, os irmãos se recusaram a retornar à residência. “Agora estamos do lado de fora de casa, apenas sentados aqui. Mas estamos bem. Estamos aqui, vivos”, afirmou Delfín. O relato resume a dimensão humana de um desastre que, além das perdas imediatas, recoloca a segurança das construções no centro da reconstrução colombiana.