O preenchimento da cota anual de exportação de carne bovina para a China começou a produzir efeitos na indústria frigorífica brasileira. Com o limite de 1,1 milhão de toneladas praticamente esgotado nos primeiros dias de julho, frigoríficos reduziram o ritmo de produção, concederam férias coletivas e passaram a buscar mercados alternativos para parte da produção. A reorganização da cadeia pode aumentar a oferta de carne bovina no mercado interno nas próximas semanas, pressionando os preços ao consumidor em um momento de desaceleração da inflação dos alimentos.
A mudança decorre de uma política comercial adotada por Pequim para o período entre 2026 e 2028. Pelo acordo, cada país fornecedor possui uma cota anual de exportação sujeita à tarifa de 12%. Após o limite ser alcançado, passa a incidir uma sobretaxa que eleva a tributação total para cerca de 67%, tornando economicamente inviáveis novos embarques até a abertura da cota do ano seguinte.

Levantamento da StoneX indica que o Brasil atingiu o teto de exportações logo nos primeiros dias de julho. No fim de junho, 98,5% da cota já havia sido utilizada. Com embarques superiores a 45 mil toneladas nos três primeiros dias do mês, incluindo remessas destinadas ao mercado chinês, a consultoria concluiu que o limite anual foi alcançado.
A China permanece como principal destino da carne bovina brasileira. Em 2025, o país asiático importou 1,68 milhão de toneladas da proteína produzida no Brasil, volume recorde que representou aproximadamente 48% de todas as exportações brasileiras de carne bovina. Com a cota esgotada, novos embarques destinados ao mercado chinês deverão ocorrer apenas a partir de novembro, quando começam os envios contabilizados na cota de 2027, considerando que o transporte marítimo até a China leva entre 30 e 40 dias.
A primeira consequência já aparece dentro das indústrias. A JBS concedeu férias coletivas de 20 dias, prorrogáveis por mais dez, nas unidades de Água Boa e Pedra Preta, em Mato Grosso, a partir de 1º de julho. Segundo pessoas ligadas à operação, trata-se de um ajuste temporário decorrente do redirecionamento da produção de plantas exportadoras para o mercado interno, reduzindo a necessidade de operação das unidades menores. Procurada, a empresa não comentou oficialmente as alterações na produção.
A Frigol também adotou medidas semelhantes. A empresa concedeu férias coletivas de 15 dias aos funcionários da unidade de Água Azul do Norte, no Pará, responsável por destinar cerca de 70% de sua produção ao mercado chinês. Em nota, a companhia afirmou que, apesar da ampliação das vendas para outros mercados e do fortalecimento da presença no mercado brasileiro, o redirecionamento da produção originalmente destinada à China não é suficiente para absorver integralmente os volumes exportados ao país asiático.
Outros frigoríficos instalados em Mato Grosso, maior estado exportador de carne bovina do país, também estudam conceder férias coletivas ou reduzir temporariamente o ritmo de produção. A expectativa é de reorganização dos turnos de trabalho, ajustes na compra de animais e diminuição do número de abates enquanto a demanda internacional permanece limitada.
Na avaliação de Jackson Campos, especialista em comércio exterior, as restrições impostas pela China diferem das exigências atualmente discutidas com a União Europeia.
“Na UE, o foco é a adequação regulatória, com reforço da rastreabilidade, segregação de lotes, documentação e comprovação de que os animais seguem as regras europeias sobre antimicrobianos. Na China, o problema é comercial, ligado ao uso da cota e ao impacto tarifário sobre os volumes excedentes. Nesse caso, as empresas tendem a reavaliar contratos, margens e destinos alternativos, sem que isso represente o fechamento do mercado chinês.”
Empresas com maior diversificação internacional tendem a enfrentar menor impacto. A Minerva Foods informou que sua presença em Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia permite redistribuir pedidos entre plantas habilitadas para diferentes mercados internacionais, preservando parte da capacidade exportadora diante de restrições pontuais.