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Saúde

Casos de câncer antes dos 50 anos, obesidade e gordura no fígado preocupam especialistas

Especialista destaca benefícios e cuidados no uso de medicamentos para emagrecimento, alerta para aumento de tumores em pessoas com menos de 50 anos e reforça a importância da prevenção
Por O Correio de Hoje
09/06/2026 | 13:12

As canetas emagrecedoras, o aumento dos casos de câncer em pessoas com menos de 50 anos e os riscos associados à gordura no fígado estiveram entre os temas discutidos durante um dos maiores congressos de clínica médica do mundo, realizado nos Estados Unidos. Os assuntos foram detalhados pelo médico gastroenterologista José Gurgel em entrevista à Band RN.

Segundo o especialista, um dos debates de maior destaque no evento envolveu o uso das chamadas canetas emagrecedoras em pacientes idosos com obesidade e sarcopenia, condição caracterizada pela perda de massa e força muscular decorrente do envelhecimento.

jose gurgel
Médico José Gurgel alerta para riscos do uso inadequado das canetas emagrecedoras - Foto: Reprodução

“Todo mundo sabe que essas canetas vieram realmente para revolucionar o tratamento da obesidade. A questão é o seguinte: existe um tipo especial de obesidade que acomete pessoas idosas, que é o obeso sarcopênico”, explicou.

Ele destacou que o chamado obeso sarcopênico reúne duas condições simultâneas: excesso de peso e redução significativa da força muscular. Entre os sinais estão dificuldade para se levantar de uma cadeira sem apoio, carregar peso, subir escadas e episódios de queda.

“O obeso sarcopênico é justamente a junção das duas coisas. A pessoa é obesa e é fraca. E isso é extremamente comum”, afirmou.

De acordo com o médico, o uso de medicamentos para perda de peso pode trazer benefícios metabólicos importantes, como melhora do diabetes, do colesterol e dos triglicerídeos. No entanto, há preocupação sobre a perda adicional de massa muscular em pacientes idosos.

Segundo ele, uma das questões debatidas pelos especialistas é se a perda de peso representa, de fato, um ganho global para a saúde desses pacientes quando acompanhada pela redução da musculatura.

José Gurgel também chamou atenção para o uso das canetas por pessoas sem indicação clínica, especialmente jovens com sobrepeso discreto.

Segundo ele, pessoas com índice de massa corporal levemente elevado devem priorizar mudanças no estilo de vida.

“Se você tem 26, é um sobrepeso discreto. Vá malhar, vá fazer atividade física e vá ingerir menos caloria. Você não tem indicação dessas canetas emagrecedoras, zero. Você tem que fazer modificação de estilo de vida, ponto final”, declarou.

O médico relatou já ter atendido pacientes jovens com complicações decorrentes do uso inadequado desses medicamentos.

Outro tema discutido no congresso foi o aumento da incidência de câncer em adultos mais jovens.

Segundo Gurgel, estudos comparando dados atuais com registros da década de 1990 apontam crescimento expressivo.

“Quando você compara os dados estatísticos de hoje com 1990, você vai ver que houve um aumento de até 80% dos casos de câncer em pessoas mais jovens”, afirmou.

Ele destacou que os principais tipos observados nesse grupo são câncer de mama, câncer colorretal e câncer de próstata.

“Está havendo um aumento, principalmente, do câncer de intestino grosso”, ressaltou.

O especialista explicou que o histórico familiar deve ser observado com atenção, principalmente quando o diagnóstico ocorre precocemente em parentes de primeiro grau.

“A coisa mais importante é saber se você teve algum parente de primeiro grau, pai, mãe ou irmão, que teve câncer jovem”, disse.

Nesses casos, os protocolos de rastreamento podem ser antecipados. Como exemplo, ele citou a colonoscopia.

O médico também destacou a importância da investigação genética em situações específicas.

A doença hepática gordurosa também foi destaque entre os temas debatidos no congresso. Segundo José Gurgel, cerca de 30% da população apresenta gordura no fígado.

“Um em cada três pessoas pode ter gordura no fígado”, disse.

O gastroenterologista alertou que o problema frequentemente está associado ao sobrepeso, à obesidade e ao diabetes.

“A maior parte dessas gorduras no fígado geralmente está acompanhada de sobrepeso ou obesidade, pré-diabetes ou diabetes”, afirmou.

Ele destacou ainda que a presença de gordura hepática não deve ser encarada como uma condição inofensiva. Segundo ele, a doença pode evoluir ao longo dos anos.

O especialista detalhou que a sequência pode incluir inflamação hepática, fibrose e, posteriormente, cirrose.

Gurgel explicou que a gordura no fígado está diretamente ligada ao diabetes. Segundo ele, o acúmulo de gordura faz parte de uma cadeia de alterações metabólicas que também podem afetar olhos, rins e outros órgãos. “A gordura no fígado é apenas um dos problemas do paciente diabético”, observou.

Sobre o consumo de bebidas alcoólicas, o médico lembrou que a Organização Mundial da Saúde não considera nenhuma quantidade de álcool como benéfica à saúde.

Ele destacou que o álcool representa uma fonte adicional de calorias e pode contribuir para o aumento da gordura corporal e hepática.

José Gurgel reforçou a importância da atividade física regular para prevenção da obesidade e da sarcopenia.

Segundo ele, a OMS recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física para sair do sedentarismo. “Para você sair da obesidade são 300 minutos”, afirmou.

O médico defendeu a combinação de exercícios aeróbicos e musculação.

Entre as recomendações, ele citou a substituição de alimentos refinados por integrais, aumento do consumo de frutas e verduras, uso moderado de azeite de oliva e preferência por peixes e carnes brancas.