A ginecologista Cazuy Guerra afirmou que a principal carência na saúde da mulher ainda está na prevenção, especialmente no rastreamento do câncer ginecológico, na vacinação contra o HPV, no acompanhamento pré-natal e no diagnóstico precoce de infecções sexualmente transmissíveis. Segundo ela, muitos casos continuam chegando aos serviços de saúde em estágio avançado, quando as possibilidades de tratamento já são mais limitadas.
A médica fez o alerta durante entrevista à 97 FM, ao falar sobre o lançamento do livro “Doenças Ginecológicas: Entenda, Previna e Cuide da Sua Saúde Íntima”, disponível em formato digital. A obra reúne orientações sobre temas como HPV, síndrome dos ovários policísticos, câncer ginecológico, corrimento, puberdade, anatomia feminina e outras questões relacionadas à saúde íntima da mulher.

Cazuy explicou que o livro nasceu a partir de temas desenvolvidos durante o mestrado e que inicialmente seriam transformados em projetos de extensão. O material foi amadurecido com apoio da família e ganhou formato de publicação voltada tanto ao público leigo quanto a estudantes de medicina. Segundo a médica, o objetivo é oferecer informação segura diante da quantidade de conteúdos imprecisos que circulam na internet.
“Fazer livro não é fácil. Fazer ciência também não é fácil”, afirmou. Ela destacou que a Maternidade Escola Januário Cicco, ligada à UFRN, tem papel não apenas na assistência às mulheres, mas também no ensino e na produção científica.
Cazuy disse que uma das maiores preocupações é o diagnóstico tardio do câncer ginecológico. Segundo ela, ainda há pacientes que chegam aos serviços de saúde com tumores em estágio avançado, inclusive sem possibilidade cirúrgica, tendo de seguir diretamente para terapias como a quimioterapia.
“Falta a prevenção primária mesmo”, disse a ginecologista. Ela citou o exame preventivo, a pesquisa do HPV e a vacinação como instrumentos fundamentais para reduzir os casos graves de câncer de colo do útero. A médica lembrou que o Ministério da Saúde recomenda o rastreamento para mulheres entre 25 e 65 anos, mas observou que muitas adolescentes iniciam a vida sexual cedo e sem proteção adequada.
A vacina contra o HPV também foi defendida por Cazuy. Ela afirmou que ainda há resistência de famílias que associam equivocadamente a vacinação ao estímulo à vida sexual. Para a médica, esse receio prejudica a prevenção de uma doença diretamente ligada ao câncer de colo do útero. A ginecologista explicou que os tipos 16 e 18 do HPV estão entre os principais responsáveis pela maioria dos casos de câncer de colo uterino. Segundo ela, mesmo mulheres que já iniciaram a vida sexual podem se vacinar, desde que mantenham o acompanhamento ginecológico e os exames preventivos.
Outro ponto de alerta foi o aumento das infecções sexualmente transmissíveis. Cazuy afirmou que percebe redução no uso de preservativos e disse que doenças como sífilis e HIV voltaram a preocupar. Ela relatou que casos de sífilis têm sido observados inclusive entre puérperas atendidas na maternidade. A médica também chamou atenção para a baixa procura por testes rápidos. Segundo ela, os postos de saúde oferecem esse tipo de exame, mas a adesão ainda é insuficiente. Cazuy disse que já houve casos em Natal de testes rápidos que chegaram a perder a validade por falta de procura.
A sífilis em gestantes foi outro tema tratado. A ginecologista explicou que a sífilis neonatal precisa ser detectada e tratada rapidamente, porque pode provocar alterações cognitivas, neurológicas e até na dentição da criança. O tratamento, segundo ela, continua sendo feito com penicilina.
Na área obstétrica, Cazuy afirmou que a chegada de gestantes com pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia e convulsões indica falhas no acompanhamento pré-natal. Ela explicou que a pré-eclâmpsia não se resume à pressão alta, podendo atingir rins, fígado e sistema neurológico, além de provocar dor de cabeça, convulsões e outras complicações.
A médica também relacionou mudanças no estilo de vida ao surgimento ou agravamento de doenças ginecológicas e metabólicas. Ela citou sedentarismo, obesidade, diabetes, consumo de alimentos ultraprocessados e excesso de carboidratos como fatores que podem interferir no metabolismo, nos ovários e na fertilidade.
Ao falar sobre a antiga síndrome dos ovários policísticos, Cazuy lembrou que houve mudança recente na nomenclatura, com a adoção da expressão síndrome ovariana metabólica poliendócrina. Segundo ela, a alteração reflete melhor a relação da condição com fatores hormonais e metabólicos.
No encerramento da entrevista, a ginecologista reforçou que a prevenção não pode ficar restrita a campanhas pontuais. Para ela, a orientação às mulheres precisa ocorrer de forma permanente.