A médica Angelita Habr-Gama, considerada uma das maiores referências da medicina brasileira e uma das principais autoridades mundiais no tratamento do câncer de reto, morreu no último sábado, aos 94 anos, em São Paulo. A informação foi confirmada pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde ela estava internada desde o dia 6 de maio. A causa da morte não foi divulgada.
Professora titular emérita da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Angelita construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo, pela produção científica e pela formação de gerações de médicos. Reconhecida internacionalmente por suas contribuições à cirurgia digestiva e à coloproctologia, ela deixa um legado que influenciou o tratamento de pacientes no Brasil e em diversos países.

Até os últimos anos de vida, a médica mantinha atuação ligada ao Centro Especializado em Aparelho Digestivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, instituição que destacou sua importância para o desenvolvimento da medicina nacional.
A morte da especialista gerou manifestações de pesar de profissionais da saúde e entidades médicas, que ressaltaram seu papel na transformação da cirurgia e da pesquisa científica no País.
A cardiologista Ludhmila Hajjar, professora titular de Emergências da Faculdade de Medicina da USP e diretora da Cardiologia do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, destacou a dimensão do legado deixado por Angelita.
“A professora Angelita Gama foi uma das maiores referências da medicina brasileira, uma mulher à frente do seu tempo, que formou gerações, abriu caminhos para tantas outras mulheres e deixa um legado imenso de ciência, coragem, liderança e humanidade. Sua partida é uma perda irreparável para a medicina e para o país”, afirma.
Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, e filha de imigrantes libaneses, Angelita Habr-Gama mudou-se para São Paulo ainda na infância, aos 6 anos de idade. Foi na capital paulista que construiu toda a sua formação acadêmica e profissional.
Graduou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, instituição na qual também realizou especialização em cirurgia geral e cirurgia do aparelho digestivo. Ao longo da carreira, tornou-se responsável pela criação da disciplina de Coloproctologia, área da medicina dedicada ao estudo e tratamento das doenças do intestino grosso, reto e ânus.
Sua trajetória foi marcada por uma série de conquistas inéditas para mulheres na medicina brasileira. Angelita foi a primeira mulher a tornar-se professora titular em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP, um dos mais importantes centros hospitalares e acadêmicos do País.
Também foi a primeira mulher aceita pela sociedade americana de cirurgia e a primeira médica a receber premiação concedida pela sociedade europeia de cirurgia. Para colegas de profissão, sua atuação ajudou a abrir espaço para a participação feminina em áreas tradicionalmente dominadas por homens.
“Angelita foi pioneira em muitos aspectos. A primeira mulher residente de cirurgia do Hospital das Clínicas, a primeira professora titular do departamento de gastroenterologia da Faculdade de Medicina, entre tantos outros feitos. Ela foi um divisor de águas na maneira de se fazer medicina no país”, diz o neurocirurgião Francisco Sampaio Júnior, do Hospital Sírio-Libanês.
O trabalho desenvolvido por Angelita Habr-Gama ultrapassou as fronteiras brasileiras e conquistou reconhecimento em diversos centros médicos internacionais. Seu nome passou a figurar entre os 2% de cientistas mais influentes do mundo, segundo o ranking elaborado pela Universidade Stanford, um dos levantamentos acadêmicos mais respeitados internacionalmente.
Em 2023, recebeu outro reconhecimento histórico ao se tornar a primeira mulher do mundo agraciada com a Medalha Bigelow, concedida pela Sociedade de Cirurgia de Boston, nos Estados Unidos. A honraria é destinada a profissionais que apresentam contribuições relevantes para o avanço da cirurgia e da medicina.
Entre suas principais contribuições científicas está o desenvolvimento e a consolidação da estratégia conhecida como “Watch and Wait”, abordagem voltada para pacientes selecionados com câncer de reto.
A proposta consiste em adotar um acompanhamento rigoroso após determinados tratamentos, permitindo, em situações específicas, preservar o reto do paciente e evitar procedimentos cirúrgicos mais agressivos.
A estratégia ganhou reconhecimento internacional e passou a influenciar protocolos de tratamento em diferentes países, tornando-se uma das marcas de sua produção científica. Os avanços promovidos por Angelita contribuíram para ampliar alternativas terapêuticas e melhorar a qualidade de vida de pacientes diagnosticados com câncer colorretal.
A repercussão da morte da médica mobilizou entidades ligadas à especialidade. Em nota oficial, a Sociedade Brasileira de Coloproctologia lamentou o falecimento da especialista e ressaltou sua importância para o desenvolvimento da área. A entidade definiu Angelita Habr-Gama como “uma líder inconteste, professora por excelência, pesquisadora incansável e cientista brilhante”.
Ao longo de décadas de atuação, Angelita Habr-Gama acumulou títulos, reconhecimentos e conquistas inéditas. Mais do que os prêmios e honrarias, entretanto, deixa como legado a contribuição para a formação de profissionais, o avanço do conhecimento científico e a transformação do tratamento de doenças colorretais. Sua trajetória consolidou seu nome entre os mais importantes da história da medicina brasileira e internacional.