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Autoridades

Jatinhos privados transportaram congressistas e ministros do STF

Registros apontam viagens de ministros, parlamentares e integrantes do Executivo em aeronaves de empresários
Por O Correio de Hoje
16/04/2026 | 15:34

Documentos obtidos pelo jornal Folha de S. Paulo revelam que o uso de jatinhos privados é prática recorrente entre autoridades dos três Poderes. Registros de passageiros do terminal executivo do Aeroporto de Brasília, em 2025, apontam a presença de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), integrantes do Executivo e parlamentares do Congresso Nacional.

A lista indica que ao menos 38 deputados federais, 20 senadores, quatro ministros do STF e quatro do governo federal utilizaram o espaço. As aeronaves pertencem a empresários, empresas de táxi aéreo e, em alguns casos, aos próprios parlamentares.

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Uso de jatinhos privados por autoridades dos três Poderes levanta questionamentos - Foto: Bruno Spada / Rosinei Coutinho / Geraldo Magela

Embora o uso de aeronaves privadas não seja ilegal, a prática suscita questionamentos quando o transporte é oferecido por empresários ou pessoas potencialmente beneficiadas por decisões públicas. Especialistas apontam que a situação pode configurar conflito de interesses e, em casos de troca de favores, até crime.

Entre os casos identificados, está o do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), que utilizou um jatinho do empresário Marcelo Perboni em 14 de janeiro do ano passado para comparecer ao enterro do pai do deputado Arthur Lira (PP-AL). Dono de uma rede de supermercados no Distrito Federal, Perboni afirmou, por meio de sua assessoria, que “em um momento de luto, Marcelo Perboni disponibilizou transporte para a ida do deputado citado [Motta], em caráter estritamente pessoal e solidário”. Motta não se manifestou.

O parlamentar assumiu a presidência da Câmara em fevereiro de 2025 e, desde então, passou a ter direito ao uso de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB).

Outro exemplo é o do senador Otto Alencar (PSD-BA), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Ele realizou três viagens em jatinhos da Prime You, empresa que teve como sócio o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Os voos ocorreram em 13 de março, 9 de abril e 12 de junho de 2025.

O senador afirmou desconhecer a propriedade da aeronave e informou que os deslocamentos foram custeados pelo advogado Ciro Soares. “O advogado Ciro Soares, que tem residência e escritório em Salvador, advogado em casos do PSD da Bahia, me convidou para esses voos”, declarou. Soares confirmou a versão e explicou: “No presente caso, chamei o senador Otto para viajar comigo, que estava indo para o mesmo destino, Salvador”.

Um filho do parlamentar, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) Otto Alencar Filho, possui participação em empresa que recebeu R$ 12 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025. Dono da M&A Participação — uma das controladoras da Mollitiam, beneficiária dos recursos —, ele afirmou em nota que “todos os serviços dessas empresas foram devidamente faturados; receitas, despesas e investimentos contabilizados; e impostos pagos”.

Outro caso envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que realizou oito viagens em uma aeronave pertencente a um dos proprietários da JBS Terminais, empresa do grupo JBS responsável pela operação de portos marítimos.

Ministros do STF

No Judiciário, os episódios mais emblemáticos envolvem os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.

Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci, foram registrados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) como passageiros do hangar de jatos executivos de Brasília em oito ocasiões, seguidas por decolagens de aeronaves da Prime Aviation. O escritório de Viviane, o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, recebeu R$ 80 milhões em dois anos do Banco Master, conforme documentos enviados à CPI do Senado que investiga o crime organizado. Segundo o jornal O Globo, o contrato previa pagamentos de R$ 129 milhões em três anos, o equivalente a R$ 3,6 milhões mensais.

Já Dias Toffoli acessou o terminal executivo às 10h de 4 de julho, de acordo com a Anac. Dez minutos depois, um avião da Prime Aviation decolou para Marília (SP), sua cidade natal, segundo dados do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea). Relator original do inquérito sobre fraudes no Banco Master, o ministro deixou o caso após a Polícia Federal apontar pagamentos a uma empresa ligada a ele, que, segundo Toffoli, referiam-se à venda de participação no Tayayá.

Por sua vez, Kassio Nunes Marques, que será empossado presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), realizou diversas viagens em aeronave do advogado eleitoral Gustavo Severo, atuante na corte. Severo defendeu o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. Kassio participou do julgamento no TSE e votou pela absolvição do político.

Quem usou jatinho na capital federal em 2025

Dados do terminal executivo de Brasília

  • 38 deputados federais
  • 20 senadores
  • 4 ministros do STF
  • 4 ministros do governo Lula