A recente pressão sobre os preços dos combustíveis fósseis tem acelerado a valorização de alternativas de baixo carbono no cenário energético internacional. Nesse contexto, o etanol volta a ganhar protagonismo, agora não apenas como combustível, mas como uma plataforma capaz de integrar diferentes cadeias produtivas e rotas tecnológicas.
A avaliação foi destacada durante o painel “Corredores verdes: desenvolvendo o mercado de combustíveis de baixo carbono na aviação e no transporte marítimo Brasil–China”, que reuniu especialistas para discutir o papel do biocombustível na transição energética. Um dos pontos centrais do debate foi o potencial do Brasil de ampliar significativamente sua produção.

“O Brasil pode chegar a cerca de 30 milhões de toneladas por ano, enquanto os Estados Unidos estão em torno de 15 milhões, mas o principal desafio ainda é a escala. Sem isso, não conseguimos avançar na adoção desses combustíveis, que conectam agricultura, energia e transporte”, afirmou Shen Wang, CEO da SafPac.
O dado reforça uma mudança de percepção sobre o etanol, que passa a ser visto como um vetor energético com aplicações em múltiplos setores. Segundo especialistas, o combustível já se insere em três frentes principais de descarbonização — transporte marítimo, aviação e indústria — e avança também sobre o próprio setor energético, ampliando seu escopo de utilização.
O avanço de tecnologias digitais tem contribuído para esse processo, ao permitir novas formas de uso do etanol fora dos modelos tradicionais de geração de energia. Isso abre espaço para aplicações mais diversificadas, com menor intensidade de carbono, e fortalece o papel do biocombustível em uma economia cada vez mais digitalizada.
Apesar do potencial, a consolidação desse novo posicionamento ainda depende de desafios estruturais, sobretudo relacionados à escala de produção e à redução de incertezas regulatórias e de mercado. Ao mesmo tempo, o debate sobre a transição energética passa a incorporar, de forma mais explícita, a dimensão geopolítica.
“Não se trata apenas de descarbonização, mas também de garantir o fornecimento de energia no futuro”, afirmou Li Zhenglong, vice-diretor da Universidade de Zhejiang.
A combinação entre segurança energética e sustentabilidade tende a reduzir uma das principais barreiras históricas dos biocombustíveis: o custo. Nesse cenário, a relação entre Brasil e China surge como um eixo estratégico. Enquanto o país asiático avança na definição de padrões, na demanda e no desenvolvimento tecnológico, o Brasil se destaca pela disponibilidade de biomassa e pela capacidade agrícola.
Esse arranjo, no entanto, traz também riscos. Especialistas alertam que, sem uma estratégia clara, o país pode limitar sua atuação à exportação de matéria-prima, sem capturar os ganhos industriais associados à cadeia produtiva.
“Se não houver estratégia, corremos o risco de ficar apenas como exportadores de etanol, sem desenvolver a indústria associada”, afirmou Larissa Wachholz, senior fellow do Cebri.