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Opinião

Flávio repete roteiro do pai

Declarações nos EUA retomam críticas ao processo eleitoral e levantam dúvidas sobre tentativa de reposicionamento político
Por O Correio de Hoje
31/03/2026 | 15:18

A tentativa do senador Flávio Bolsonaro (PL) de se apresentar como uma versão “moderada” do ex-presidente Jair Bolsonaro esbarra em um padrão que se repete. A retórica adotada pelo parlamentar indica que o discurso bolsonarista mantém traços consistentes, sobretudo na forma de lidar com o processo eleitoral.

Durante participação na Conferência de Ação Política Conservadora, realizada nos Estados Unidos, Flávio defendeu o “monitoramento” das eleições brasileiras e sugeriu a necessidade de “pressão diplomática” externa para assegurar um pleito “livre e justo”. Ao afirmar que “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”, deixou implícita a ideia de que um eventual resultado desfavorável dependeria de irregularidades.

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O conteúdo dessa fala guarda semelhança com a atuação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que ao longo de anos questionou a lisura das eleições e acabou condenado por tentativa de golpe de Estado. Naquele contexto, houve mobilização de embaixadores estrangeiros às vésperas da eleição de 2022 para difundir desconfiança sobre o sistema eleitoral. Ao recorrer a atores internacionais, Flávio adota linha semelhante ao estimular pressão externa sobre instituições brasileiras.

No mesmo evento, o senador retomou outra narrativa recorrente ao afirmar que o governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Joe Biden, teria financiado a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 por meio da USAID. Segundo ele, “as mesmas pessoas que prenderam meu pai tiraram esse homem – o ex-presidente socialista Lula da Silva, condenado múltiplas vezes por corrupção – da prisão e o colocaram de volta na Presidência. Tudo isso sob uma enxurrada de dinheiro da USAID e com massiva interferência da administração Biden”. Nenhuma evidência foi apresentada para sustentar a declaração.

A imagem de moderação também encontra resistência em declarações anteriores do próprio senador. Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo no ano passado, Flávio delineou o perfil de um candidato alinhado ao bolsonarismo. Defendeu a articulação de uma anistia ao ex-presidente no Congresso e mencionou a necessidade de impedir interferências do Supremo Tribunal Federal. Ao tratar dessa hipótese, afirmou que seria preciso “fazer com que o Supremo Tribunal Federal respeite os demais Poderes” e acrescentou que se trata de “uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força”.

A referência ao “uso da força” evidencia a disposição de tensionar o ambiente institucional, com potencial de intimidação a adversários e às próprias instituições. Na mesma linha, a recente tentativa de mobilizar governos estrangeiros para questionar o processo eleitoral brasileiro aponta para um padrão de atuação que busca deslegitimar resultados desfavoráveis.

Ainda na conferência, Flávio afirmou que as eleições brasileiras devem respeitar “os valores de origem americana”. A expressão não foi detalhada. Em um passado recente, esses valores incluíam a aceitação dos resultados eleitorais. No cenário atual, em que o ex-presidente Donald Trump, referência política do senador, rejeitou a derrota para Joe Biden em 2020 e mantém acusações de fraude sem comprovação, o sentido dessa referência passa a ser interpretado sob outro contexto.