A recente movimentação envolvendo o comando do Republicanos no Rio Grande do Norte reposicionou o tabuleiro político no Estado. A articulação liderada pelo prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil), resultou na transferência do controle do partido para o vice-prefeito Marcos Medeiros, que assumirá a prefeitura e também a presidência da sigla. O impacto mais imediato recai sobre o ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias, que deixa de contar com a estrutura partidária que presidia e que poderia integrar seu campo político, mesmo após sua migração para o PL com foco na disputa pelo governo.
A perda do Republicanos também reduz a capacidade de composição do grupo de Álvaro, especialmente em tempo de televisão e acesso a recursos eleitorais. Nos bastidores, a movimentação é associada a dificuldades de coordenação dentro do próprio campo da direita. O senador Rogério Marinho (PL), que ocupa posição de liderança no Estado e atua na coordenação da pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, aparece em avaliações como menos presente nas articulações locais. A leitura recorrente é de que sua atuação tende a se concentrar mais no plano nacional do que diretamente na construção da campanha estadual.

Outro ponto que ganha espaço nesse contexto é a formação da chapa majoritária. A indicação do Coronel Hélio (PL) para disputar o Senado ao lado do senador Styvenson Valentim (PSDB) e de Álvaro Dias tem sido mencionada em discussões internas. Há questionamentos sobre o potencial de agregação do nome, o que revela uma preocupação com o alcance eleitoral da composição. Ao mesmo tempo, a escolha é associada à influência do ex-presidente Jair Bolsonaro, que mantém interlocução ativa com o grupo.
Diante desse conjunto de movimentos, cresce entre apoiadores a percepção de um processo ainda em ajuste. A reorganização de partidos, a definição das chapas e o nível de integração entre as lideranças passam a influenciar o ritmo da construção do projeto majoritário, em um cenário que também registra a movimentação de outros campos políticos no Estado.
Política é como as nuvens
A política, como as nuvens, muda de forma sem aviso — e o episódio envolvendo o Republicanos no Rio Grande do Norte reforça essa dinâmica. O deputado estadual Francisco do PT (PT) resumiu o cenário ao comentar a reconfiguração partidária no estado. “Na realidade, tomei conhecimento pela mídia, pela imprensa, que divulgaram. Não era isso que se cogitava dos bastidores da política do Estado”, afirmou. Até então, segundo ele, o entendimento era outro: “Na Assembleia Legislativa, todo mundo dava como certo que o Republicanos iria ficar sob o comando do presidente da Assembleia, o deputado Ezequiel Ferreira”. A mudança inesperada reforça o caráter volátil das articulações. “Mas é isso, né? É a vida, é a política. Como ela não é uma ciência exata, ela vai mudando a cada hora, a cada minuto. Muda mais do que a previsão do tempo aqui para a nossa região”, completou, ao sintetizar a imprevisibilidade do jogo político.
Consignados viram denúncia de crime
O deputado estadual Gustavo Carvalho (PL) elevou o tom das críticas ao governo do Estado ao classificar a gestão dos empréstimos consignados como possível caso de apropriação indébita. A declaração foi feita após reunião da Comissão de Finanças da Assembleia Legislativa, que contou com a presença do secretário da Fazenda, Cadu Xavier.
Segundo o parlamentar, o problema ocorre quando o valor é descontado diretamente do contracheque do servidor, mas não é repassado às instituições financeiras. “O governo desconta e não paga. Isso é um absurdo. Isso é crime”, afirmou, ao reforçar o enquadramento jurídico da situação.
Durante a reunião, de acordo com Gustavo, o próprio governo reconheceu a existência da dívida, estimada em R$ 370 milhões, sendo R$ 314 milhões apenas com o Banco do Brasil. Ele também destacou os prazos de atraso informados: cerca de 4,5 meses para o banco estatal e 5 meses para outras instituições financeiras.
O deputado questionou a justificativa apresentada pela equipe econômica, que atribuiu o problema à queda de arrecadação. Para ele, a explicação não se sustenta diante de medidas recentes, como o aumento da alíquota de ICMS. “Se houve aumento de receita, por que a dívida cresceu?”, indagou.
Outro ponto levantado foi o prazo para regularização do passivo. Segundo Gustavo, há indicação de que a quitação pode se estender até 2026, o que transferiria o problema para a próxima gestão estadual. “O próximo governo pode receber essa conta sem ter gerado essa dívida”, afirmou.
Flavio Bolsonaro tentou Republicanos
O senador Flávio Bolsonaro (PL) se reuniu pela primeira vez, há 15 dias, com o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, em busca de apoio para sua candidatura presidencial. A conversa, no entanto, não foi positiva. Há arestas entre os partidos e a tendência hoje é que a sigla fique neutra na eleição, sem declarar apoio a nenhum candidato no primeiro turno.
Segundo integrantes do Republicanos ouvidos pela Folha sob reserva, o diálogo entre Pereira e Flávio não foi bom. Não houve clima nem sequer para discutir a entrada formal do partido no palanque do pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto. O deputado e o senador nunca foram próximos.
O encontro ocorreu após Pereira se queixar publicamente de que não tinha sido procurado por Flávio desde que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) o escolheu como pré-candidato em dezembro. Além disso, reclamou da tentativa do PL de filiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e de não ouvir o Republicanos na composição das chapas, como a do Rio de Janeiro.