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Opinião

Mentira passou a decidir eleições

Avanço da desinformação e uso de inteligência artificial ampliam riscos ao debate público e à formação do voto
Por O Correio de Hoje
23/03/2026 | 15:26

O processo eleitoral brasileiro entra em uma fase em que a informação deixa de cumprir sua função essencial — esclarecer — e passa a ser utilizada como instrumento de disputa. Não se trata de um risco futuro. É uma realidade já em curso.

O juiz eleitoral Herval Sampaio foi direto ao ponto ao tratar do tema. Para ele, a desinformação é hoje um dos maiores desafios da Justiça Eleitoral. E não apenas pela existência da mentira, mas pela sua eficácia. Como ele próprio reconhece, “uma mentira bem contada passa a se tornar verdade”. Não é uma figura de linguagem. É um diagnóstico.

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O que está em jogo é simples: o eleitor não está mais sendo apenas informado. Está sendo disputado por versões.

A entrada da inteligência artificial nesse cenário agravou o problema. Herval é claro ao afirmar que se trata de um “caminho sem volta”. O ponto crítico não é a tecnologia em si, mas o uso que se faz dela. Quando utilizada para produzir conteúdos manipulados, capazes de simular realidade com alto grau de verossimilhança, o impacto deixa de ser marginal. Passa a ser decisivo.

E o tempo é um fator determinante. Segundo o magistrado, quando a desinformação é lançada próxima ao período eleitoral, seus efeitos podem ser “irreversíveis dentro de uma eleição”. Isso significa que não se trata apenas de distorcer o debate — trata-se de interferir diretamente no resultado.

Esse fenômeno não ocorre no vazio. Ele se combina com outro problema estrutural: a fragilidade do ambiente informacional. O próprio Herval reconhece que o Direito Eleitoral é um campo “flexível”, com regras que mudam com frequência. Em paralelo, a Justiça Eleitoral ainda busca consolidar instrumentos eficazes para lidar com a velocidade e a escala da desinformação.

Há um esforço institucional. Mas ele ainda corre atrás de um fenômeno que se antecipa.

Ao mesmo tempo, o magistrado chama atenção para outro ponto sensível: a deterioração do debate público. Ele afirma que a democracia pressupõe divergência e contraposição de ideias. Quando um dos lados passa a negar a legitimidade do outro ou a impor versões como verdades absolutas, o ambiente deixa de ser político e passa a ser disfuncional.

Esse é o terreno ideal para a desinformação prosperar.

O problema, portanto, não é apenas tecnológico. É comportamental e político. Há uma indústria de versões em funcionamento, que explora fragilidades do sistema e, sobretudo, da percepção do eleitor.

Diante disso, não há espaço para ingenuidade. Informação não pode ser tratada como algo neutro por definição. Precisa ser analisada, confrontada e compreendida dentro do contexto em que é produzida.

O eleitor precisa ser mais exigente. E as instituições, mais firmes.

A advertência está feita. E ela não pode ser ignorada. Porque, quando o voto é formado a partir de uma realidade distorcida, o que se compromete não é apenas a escolha — é a própria legitimidade do processo democrático.

A eleição continua sendo decidida nas urnas. Mas, cada vez mais, começa a ser definida antes — no terreno invisível onde se disputa o que é verdade.