A decisão da governadora Fátima Bezerra (PT) de permanecer no cargo até o fim do mandato, abrindo mão da disputa ao Senado, é um movimento que, à primeira vista, parece defensivo, mas revela cálculo político apurado. Em um ambiente dominado por projetos pessoais, a opção por não renunciar indica leitura correta do risco institucional que se desenhava.
Fátima não dispunha das condições políticas para assegurar a eleição de um sucessor em votação indireta na Assembleia Legislativa. E mais: não havia, no campo oposicionista, compromisso com a estabilidade de um eventual governo tampão. Ao contrário, o cenário apontava para uma solução voltada à desorganização administrativa, com viés eleitoral e objetivo de enfraquecer o PT no Estado.

Diante disso, a governadora fez uma escolha incomum. Abriu mão de um projeto pessoal consistente — o retorno ao Senado, onde teve atuação relevante — para preservar o controle político e administrativo do Estado. Ainda que não liderasse as pesquisas, eleições majoritárias comportam reviravoltas, sobretudo com apoio presidencial. Fátima teria em Lula um ativo importante. Ainda assim, recuou.
O gesto combina pragmatismo e responsabilidade institucional. Ao evitar a entrega do governo a forças não legitimadas pelo voto, preserva não apenas sua gestão, mas a estabilidade do Rio Grande do Norte.
Agora, o desafio muda de natureza. Lula já indicou que espera de Fátima empenho na construção da candidatura de Cadu Xavier ao governo, além do fortalecimento das chapas proporcionais. Caberá a ela assumir esse papel, com presença em campo, articulação e capacidade de transferência eleitoral.
Cadu parte de posição modesta, mas não se pode ignorar o peso da máquina estadual e do lulismo no Nordeste. O objetivo é tirá-lo da condição de coadjuvante e inseri-lo na disputa competitiva, mirando o segundo turno.
Há desgaste, especialmente nas áreas fiscal e educacional. Mas a narrativa de colapso não se sustenta por completo. Há avanços em segurança, agricultura, turismo e modernização administrativa, com renovação de quadros e valorização salarial.
Na comunicação, houve melhorias, mas insuficientes diante da máquina agressiva de desinformação operada pela oposição e por setores da elite conservadora de Natal. É uma disputa desigual.
Se conseguir ajustar esse eixo e assumir protagonismo eleitoral, Fátima ainda pode influenciar 2026. Em política, cenários mudam rapidamente.
Natália recua e perde protagonismo
Apontada como sucessora natural da governadora Fátima Bezerra na liderança do PT no Rio Grande do Norte, a deputada federal Natália Bonavides tem adotado um movimento que, para aliados e analistas, configura um claro recuo político. Ao abrir mão de disputar tanto o Governo do Estado quanto o Senado, opta por permanecer na zona de conforto de uma reeleição considerada viável à Câmara dos Deputados, evitando riscos em um momento decisivo para o partido.
Nos bastidores, pesa a derrota na eleição municipal para o prefeito Paulinho Freire, episódio que teria impactado sua disposição para enfrentar novas disputas majoritárias. Ainda assim, avaliações recorrentes indicam que Natália reuniria condições competitivas para o Governo do Estado, inclusive com chances reais de vitória, mesmo diante do desgaste da gestão Fátima. O problema, portanto, não seria falta de viabilidade, mas ausência de disposição para o enfrentamento.
O movimento também tensiona sua relação com a própria governadora. Durante os últimos oito anos, Natália foi uma das principais aliadas de Fátima, beneficiária de espaços políticos e projeção nacional. Agora, ao evitar assumir a defesa mais firme do governo — papel que vem sendo ocupado pelo secretário da Fazenda e pré-candidato ao Executivo, Cadu Xavier —, a deputada sinaliza um distanciamento que não passa despercebido.
No plano nacional, o impacto é ainda mais relevante. A eleição para o Senado é tratada pelo PT como estratégica para conter o avanço da direita. Ao recusar essa disputa, especialmente após a saída de Fátima, Natália impõe ao partido um novo revés. A decisão reforça a percepção de que sua prioridade é a preservação de um espaço pessoal já consolidado.
Esse cálculo político tem custo. Dentro do PT, cresce a avaliação de que Natália perde força e prestígio ao evitar os embates mais duros. Em política, liderança se mede pela capacidade de assumir riscos.