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Opinião

Sem imprensa de qualidade, não há democracia

Morte de filósofo alemão reacende debate sobre esfera pública, papel do jornalismo e impactos da comunicação digital na democracia
Por O Correio de Hoje
17/03/2026 | 15:03

A morte de Jürgen Habermas, aos 96 anos, encerra uma das trajetórias intelectuais mais influentes do pensamento contemporâneo — e recoloca no centro do debate um conceito decisivo para compreender as democracias modernas: a esfera pública.

Formulada pelo filósofo alemão, a ideia descreve o espaço no qual temas de interesse coletivo são debatidos por atores sociais diversos, públicos e privados, permitindo a formação de uma opinião pública capaz de refletir as demandas da sociedade civil e exercer pressão legítima sobre os governos. Nesse arranjo, o jornalismo ocupa posição central como mediador entre o Estado e a sociedade.

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Habermas atribuía àquilo que denominava “imprensa de qualidade” uma dupla responsabilidade: informar e formar. Não se trata apenas de transmitir fatos, mas de organizá-los, interpretá-los e submetê-los ao crivo da razão pública. Em seu texto “O valor da notícia”, o filósofo sustenta, com base em estudos sobre fluxos de comunicação, que a imprensa exerce papel de liderança no campo da comunicação política. O noticiário de rádio e televisão, por exemplo, depende diretamente dos temas e das análises produzidos por um jornalismo que ele classificava como “argumentativo”. Sem esse impulso — ancorado em informação confiável e comentário qualificado — a esfera pública perde a energia necessária para cumprir sua função.

Essa preocupação atravessa toda a obra de Habermas e reaparece com força em seu último livro, “Uma nova mudança estrutural da esfera pública”, no qual examina os efeitos da comunicação digital sobre a vida democrática. A expansão das redes sociais, longe de ampliar automaticamente o debate público, introduziu uma dinâmica marcada por fragmentação e ruído. Nesse ponto, a advertência do filósofo francês Jean Baudrillard revela-se complementar: a desinformação não decorre apenas da ausência de dados, mas da superabundância de informações, repetidas e amplificadas até perderem sentido.

Habermas identifica nas plataformas digitais a formação de “bolhas de opinião autossustentáveis”, ambientes fechados que alimentam visões homogêneas e reduzem a possibilidade de confronto racional de ideias. Nesse contexto, a esfera pública deixa de ser um espaço de deliberação e passa a se fragmentar sob a influência de interesses econômicos das grandes empresas de tecnologia, cujo compromisso principal reside no lucro. O resultado é a deterioração das condições que sustentam a democracia.

Para o pensador alemão, a legitimidade democrática depende da existência de canais de comunicação eficazes entre a sociedade civil e os centros de decisão. Quando esses canais são contaminados por ruídos constantes, polarização exacerbada e manipulação informativa, o próprio processo democrático se enfraquece. Daí a importância atribuída por ele a uma imprensa livre, profissional e comprometida com a produção de informação verificável — condição indispensável para a vitalidade da esfera pública.

Essa leitura permite compreender fenômenos contemporâneos em diferentes contextos. O uso indevido de canais institucionais por agentes públicos para fins privados, a mistura entre interesses pessoais e funções de Estado e escândalos envolvendo figuras públicas — como no caso recente do Banco Master — exemplificam formas de degradação da esfera pública. Quando a comunicação se desvia de seu propósito informativo e passa a servir a agendas particulares, o debate público perde qualidade e a confiança institucional se fragiliza.

No Brasil, esse quadro se agrava pela prevalência de práticas políticas orientadas por estratégias de poder imediato, frequentemente dissociadas daquilo que Habermas chamava de “ação comunicativa” — o esforço de construção de entendimento mútuo por meio do diálogo racional. Em seu lugar, proliferam discursos voltados à mobilização emocional, à polarização e à disputa simbólica, em detrimento da argumentação informada. O resultado é um ambiente em que a comunicação deixa de aproximar e passa a dividir.

Habermas chegou a sugerir que democracias poderiam considerar mecanismos de apoio à chamada imprensa de qualidade, de modo a preservar sua função na sustentação da esfera pública. A proposta partia do reconhecimento de que o mercado, por si só, nem sempre garante as condições necessárias para que o jornalismo cumpra seu papel formador. Ainda assim, o próprio filósofo reconhecia os riscos dessa solução, sobretudo a possibilidade de interferência política que comprometeria a independência editorial e, consequentemente, a credibilidade do debate público.

A reflexão permanece atual. Sem uma imprensa capaz de informar com rigor e formar com responsabilidade, a esfera pública perde densidade, a opinião pública se fragiliza e a democracia se torna mais vulnerável. Em tempos de excesso de informação e escassez de discernimento, a função do jornalismo não se reduz — ao contrário, torna-se ainda mais exigente.

A obra de Habermas, nesse sentido, não oferece apenas uma interpretação da modernidade, mas um alerta. A qualidade da esfera pública — e, por consequência, da democracia — depende diretamente da qualidade da informação que a alimenta. Quando essa base se deteriora, o que se perde não é apenas o debate. É a própria capacidade da sociedade de se reconhecer como sujeito político.