BUSCAR
BUSCAR
Opinião

Misoginia prospera nas redes

Estudo do NetLab aponta que 90% dos canais do YouTube identificados por disseminar esse tipo de material continuam ativos e muitos lucram com monetização, cursos e consultorias
Por O Correio de Hoje
13/03/2026 | 16:05

A circulação massiva de conteúdos nas redes sociais que incentivam ou banalizam a violência contra mulheres tornou-se um fenômeno alarmante e exige resposta firme tanto das autoridades quanto das próprias plataformas digitais. A tolerância diante desse tipo de material tem produzido um ambiente de impunidade que favorece a expansão de discursos misóginos, estimula práticas de violência doméstica e, em seu estágio mais extremo, contribui para o feminicídio.

O problema não se limita à existência episódica de conteúdos ofensivos. Trata-se de uma engrenagem estruturada, que continua operando e crescendo mesmo após denúncias. Levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra que canais do YouTube dedicados à disseminação desse tipo de material seguem ativos com impressionante resiliência. Dos 137 canais identificados em 2024, nada menos que 123 — o equivalente a 90% — permaneciam em funcionamento dois anos depois, ainda difundindo mensagens que defendem ou normalizam agressões contra mulheres. Não há sequer garantia de que os 10% restantes tenham de fato desaparecido; é possível que apenas tenham migrado para outras plataformas.

Opinião Correio

Esse quadro evidencia a necessidade de atuação mais contundente por parte das empresas responsáveis pelas redes sociais. Ainda assim, o problema não se resume à inércia das plataformas. Há também uma lacuna evidente na legislação penal brasileira, que dificulta o enquadramento da misoginia como forma de discurso de ódio. A ausência de tipificação clara abre espaço para interpretações restritivas e torna mais difícil responsabilizar quem se dedica a difundir sistematicamente mensagens de desprezo e violência contra mulheres.

O fenômeno ganhou contornos ainda mais preocupantes porque passou a gerar lucro. O estudo conduzido pelo NetLab utilizou ferramentas de inteligência artificial para examinar 76.289 vídeos publicados por esses canais e identificou que, em 80% deles, havia algum tipo de monetização. Ou seja, a agressão à imagem da mulher transformou-se em modelo de negócio. Apenas em 257 transmissões ao vivo realizadas por oito canais, foram movimentados R$ 68 mil. A comercialização de produtos associados a essa cultura misógina também é expressiva: e-books são vendidos por valores entre R$ 18 e R$ 397, cursos com conteúdo machista podem chegar a R$ 2 mil, e consultorias individuais custam até R$ 1 mil.

A dimensão do público alcançado por essas redes de conteúdo também impressiona. Em apenas dois anos, o número de inscritos nesses canais saltou de 19,5 milhões para 23 milhões de pessoas.

Não por acaso, muitos influenciadores passaram a explorar deliberadamente esse tipo de conteúdo como estratégia para ampliar audiência. Um exemplo recente circulou no TikTok sob o slogan inaceitável “treinando caso ela diga não”. A proposta consistia em usuários gravarem vídeos mostrando como reagiriam caso fossem rejeitados em um pedido de namoro ou casamento. O resultado foi uma sequência de cenas violentas, com chutes, socos, ameaças com facas e até uso de armas de fogo, simulando agressões contra mulheres que recusassem investidas masculinas.

Mesmo sem uma legislação específica para tratar desse fenômeno, as autoridades dispõem de instrumentos para agir. A gravidade do problema já mobiliza especialistas e juristas que defendem avanços no arcabouço jurídico. A professora Yasmin Curzi, da FGV Direito Rio, sintetizou de forma contundente a natureza desse tipo de conteúdo ao afirmar que “não se trata de entretenimento, mas da normalização do assassinato como resposta à autonomia feminina”. Para ela, torna-se indispensável aprofundar o debate sobre a tipificação do discurso de ódio de gênero.

Nesse contexto, a Advocacia-Geral da União tomou a iniciativa de solicitar à Polícia Federal a identificação dos responsáveis por vídeos que simulam agressões contra mulheres. A medida é importante, mas claramente insuficiente diante da escala do problema. A proliferação desse tipo de conteúdo exige mais do que respostas pontuais ou reativas.

O que se impõe é a construção de uma política pública abrangente e coordenada de proteção às mulheres no ambiente digital. Isso inclui atuação mais rigorosa das plataformas, aperfeiçoamento da legislação penal e ação integrada das instituições de segurança e justiça. Sem esse esforço articulado, o espaço virtual continuará sendo terreno fértil para a difusão de violência simbólica que, muitas vezes, encontra eco trágico na realidade.