No final de fevereiro, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos firmou um acordo com a OpenAI para empregar modelos de inteligência artificial da empresa em redes confidenciais do Pentágono. A decisão veio logo após o governo de Donald Trump determinar que órgãos federais interrompessem o uso das ferramentas da Anthropic. Até então, o modelo Claude, desenvolvido por essa empresa, era utilizado pelo próprio Departamento de Guerra e por outras agências ligadas à segurança nacional.
A substituição de uma empresa por outra, contudo, não ocorreu sem controvérsia. Segundo a própria Anthropic, as negociações com o governo foram encerradas porque a companhia se recusou a atender a uma exigência considerada inaceitável: permitir que sua tecnologia pudesse ser utilizada para “qualquer finalidade legal”. A formulação, aparentemente neutra, abriria espaço para aplicações extremamente sensíveis — desde sistemas de vigilância doméstica em larga escala até a integração da inteligência artificial a armas totalmente autônomas e potencialmente letais.

A OpenAI afirma que não aceitará esse tipo de aplicação. A empresa assegura que seus sistemas não serão empregados para vigilância interna da população nem para comandar armamentos autônomos. Ainda assim, as garantias oferecidas não dissiparam completamente a inquietação da opinião pública. Afinal, o episódio revela uma tendência que merece atenção: ao mesmo tempo que o Estado amplia sua capacidade tecnológica de controle e monitoramento, ele passa a depender cada vez mais de sistemas complexos desenvolvidos por empresas privadas, cujo funcionamento permanece em grande medida opaco.
A decisão política foi anunciada de maneira direta e até agressiva pelo próprio presidente norte-americano. Em 27 de fevereiro, Donald Trump publicou em sua rede Truth Social a seguinte mensagem: “Estou ordenando a TODAS as agências federais do governo dos Estados Unidos que CESSEM IMEDIATAMENTE todo o uso da tecnologia da Anthropic. Não precisamos dela, não a queremos e não voltaremos a fazer negócios com eles!”. No mesmo dia, o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, reforçou a ordem em publicação na rede X, afirmando que “nenhum contratado, fornecedor ou parceiro que faça negócios com as Forças Armadas dos Estados Unidos poderá realizar qualquer atividade comercial com a Anthropic”.
A reação do governo ocorreu logo após a divulgação de um posicionamento público da própria empresa. Na véspera da decisão oficial, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, havia publicado uma nota defendendo limites claros para o uso da inteligência artificial. No texto, Amodei argumenta que determinados usos da tecnologia ainda ultrapassam as condições mínimas de segurança e confiabilidade atualmente disponíveis. Entre os exemplos citados por ele estão precisamente a vigilância doméstica em larga escala e o desenvolvimento de armas totalmente autônomas.
Segundo o executivo, o Departamento de Guerra deixou claro que só fecharia contratos com empresas que aceitassem a utilização da inteligência artificial para “qualquer uso legal”, inclusive removendo salvaguardas que impedissem aplicações nas áreas mencionadas. Para a Anthropic, aceitar tal condição seria irresponsável. Como afirmou Amodei, trata-se de uma exigência que a empresa “não pode, em sã consciência, atender”.
Depois de assumir o lugar da Anthropic, a OpenAI divulgou em seu site um comunicado detalhando os termos de seu entendimento com o Pentágono. A empresa declarou que as negociações estabeleceram três limites fundamentais. O primeiro deles é que não haverá uso da tecnologia da OpenAI para vigilância doméstica em massa. O segundo é que seus sistemas não serão utilizados para dirigir armas autônomas. E o terceiro determina que a inteligência artificial não será empregada em decisões automatizadas de alto impacto.
No mesmo comunicado, a empresa antecipou uma pergunta inevitável: como teria conseguido firmar um contrato que a Anthropic recusou? A resposta oferecida pela OpenAI foi a de que, “pelo que sabemos, acreditamos que nosso contrato oferece garantias mais fortes e salvaguardas mais responsáveis do que acordos anteriores”.
Resta saber até que ponto tais compromissos resistirão às pressões políticas e militares que naturalmente cercam contratos desse tipo. O tempo dirá se as garantias anunciadas pela OpenAI serão efetivamente respeitadas. Ainda assim, a situação já levanta preocupações legítimas. É inquietante imaginar a disposição do governo da principal potência democrática do planeta de ampliar sua capacidade de coleta e processamento de dados sobre a própria população por meio de sistemas de inteligência artificial.
A imagem evocada por esse cenário lembra o Panopticon idealizado pelo filósofo Jeremy Bentham. Em seu modelo, os detentos são mantidos em celas dispostas em círculo ao redor de uma torre central. Dali, um vigilante pode observar todos os prisioneiros sem que eles saibam se estão sendo observados naquele momento. O poder de vigilância é, ao mesmo tempo, total e invisível — uma presença constante cuja eficácia depende precisamente da incerteza dos vigiados.
Há ainda um segundo aspecto igualmente perturbador. O poder do Estado, inclusive em suas dimensões potencialmente letais, passa a apoiar-se em sistemas tecnológicos cujo funcionamento não é plenamente compreendido nem pelo público, nem pelas autoridades que os utilizam e, em certa medida, nem mesmo pelas empresas que os desenvolveram. Trata-se de uma inversão silenciosa, mas profunda: a capacidade de poder cresce, enquanto a compreensão de sua lógica se torna cada vez mais obscura. Em outras palavras, o alcance do poder se expande — mas sua racionalidade se torna progressivamente invisível.