Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que uma empresa ligada ao ex-prefeito de Salvador e vice-presidente do União Brasil, ACM Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Banco Master e da gestora de recursos Reag. Os repasses ocorreram entre dezembro de 2022 e maio de 2024, período posterior às eleições daquele ano.
Os pagamentos foram feitos à A&M Consultoria Ltda., empresa da qual ACM Neto é sócio junto com sua esposa. A consultoria foi aberta em 28 de dezembro de 2022 e possui capital social de R$ 2 mil. Segundo dados da Receita Federal, a empresa atua principalmente na área de consultoria em gestão empresarial, além de atividades de apoio à educação.

De acordo com o relatório do Coaf, entre junho de 2023 e maio de 2024 a empresa recebeu R$ 1,5 milhão em 11 repasses da Reag e R$ 1,3 milhão em nove transferências do Banco Master, totalizando R$ 2,9 milhões nesse período. Antes disso, entre março e junho de 2023, a empresa já havia recebido outros R$ 422,3 mil do Master e R$ 281,5 mil da Reag.
O documento aponta que a empresa movimentou valores considerados elevados em relação à capacidade financeira inicialmente declarada.
Procurado, ACM Neto confirmou os pagamentos e afirmou que os valores correspondem a serviços de consultoria prestados às duas empresas. Segundo ele, os contratos foram firmados de forma regular, com recolhimento de impostos e execução efetiva dos serviços.
De acordo com o ex-prefeito, os trabalhos envolveram análises da agenda político-econômica nacional e reuniões com equipes técnicas e jurídicas das empresas contratantes.
ACM Neto também afirmou que, no período em que prestou os serviços, não havia investigações ou fatos que desabonassem as empresas contratantes. Ele declarou ainda que atendeu outros clientes no mesmo período e que, após o encerramento dos serviços, os contratos e pagamentos foram finalizados. Segundo ele, não houve irregularidade nas consultorias prestadas.
Consultorias somam R$ 135 milhões
Além de contratos com o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, o Banco Master firmou acordos com consultores e escritórios de advocacia ligados ao meio político e jurídico. Reportagens da imprensa apontam que os pagamentos por serviços de consultoria e assessoria institucional podem chegar a cerca de R$ 135 milhões.
Entre os nomes citados está o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, ele foi contratado como consultor e teria intermediado um encontro entre o dono do banco, Daniel Vorcaro, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mantega também teria atuado em favor da aprovação da venda do Banco Master ao BRB, instituição pública do Distrito Federal.
Outro contrato envolveu o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski. Após se aposentar da Corte em 2023, o escritório do qual participa passou a prestar serviços ao banco. A contratação teria ocorrido por indicação do líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). O acordo previa pagamentos mensais de R$ 250 mil, totalizando cerca de R$ 6,5 milhões entre agosto de 2023 e agosto de 2025.
Também foi contratado o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. O contrato previa até R$ 129 milhões em três anos, mas foi encerrado após a prisão de Daniel Vorcaro e a liquidação do Banco Master.
Fraude de R$ 12 bilhões em operações irregulares
O Banco Master passou a ser investigado pela Polícia Federal após a descoberta de um esquema bilionário de fraude no sistema financeiro. De acordo com as apurações, a instituição teria emitido títulos de crédito sem lastro e realizado operações irregulares que podem alcançar cerca de R$ 12 bilhões.
Diante das suspeitas, o Banco Central decretou a liquidação do banco em novembro de 2025, medida aplicada quando uma instituição perde condições de funcionamento ou representa risco ao sistema financeiro.
O principal alvo das investigações é o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Na semana passada, ele foi preso pela segunda vez por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso.
Na decisão, o ministro afirmou haver indícios de que Vorcaro mantinha um esquema de intimidação contra adversários, incluindo a existência de um “braço armado” usado para pressionar envolvidos em disputas ou investigações relacionadas ao banco. As investigações da Polícia Federal seguem em andamento.