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Opinião

Escândalos não podem destruir a República

Diante de novos escândalos que atingem diferentes esferas do poder, o desafio é combater a corrupção com rigor sem permitir que a descrença generalizada enfraqueça as instituições democráticas
Por O Correio de Hoje
09/03/2026 | 17:39

As recentes revelações sobre o funcionamento de um esquema que envolve um banqueiro corruptor e seus intermediários, conectados a circuitos de influência que atravessam lideranças do Congresso, partidos, integrantes do governo, Banco Central e Supremo Tribunal Federal, somadas às zonas obscuras expostas pelo escândalo no INSS, vêm alimentando uma inquietação crescente na opinião pública. A impressão que se dissemina é a de que o núcleo da República estaria contaminado por relações pouco transparentes, redes de intermediação e negócios conduzidos longe da luz do interesse público.

O risco mais imediato — e também o mais grave — é que episódios dessa natureza aprofundem a desconfiança dos brasileiros em relação ao sistema político e às próprias instituições democráticas. A perplexidade diante da proximidade indevida entre interesses privados e representantes dos Três Poderes pode facilmente se converter em descrédito generalizado. Quando isso ocorre, abre-se espaço para oportunistas, aventureiros e populistas que prosperam justamente na promessa de negar a política em vez de reformá-la, vendendo a ilusão de que a solução está em destruir o sistema em vez de aperfeiçoá-lo.

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A indignação social é compreensível, mas sua transformação em desalento absoluto seria profundamente nociva. Este é um momento que exige serenidade de autoridades e cidadãos. É plenamente possível promover a limpeza dos esquemas ilícitos revelados sem fragilizar as instituições que sustentam a ordem democrática. A história recente demonstra isso. O país já atravessou sucessivas ondas de escândalos que reforçaram a percepção de que a corrupção é um problema estrutural da vida pública brasileira. O mensalão expôs a compra de apoio parlamentar; o petrolão revelou esquemas bilionários de desvio de recursos; a Operação Lava Jato abriu uma janela inédita para práticas que haviam se naturalizado — e seu próprio declínio evidenciou os riscos de um messianismo anticorrupção. Em cada um desses episódios, instalou-se a sensação de colapso moral. Ainda assim, a República permaneceu de pé.

Não é a primeira vez que as instituições brasileiras enfrentam testes severos. O país já passou pelo impeachment de Fernando Collor, acompanhou o escândalo do mensalão durante o primeiro governo do PT, testemunhou o petrolão — talvez o maior caso de corrupção da história nacional, marcado pelo saque sistemático da Petrobras e de outras estatais —, viveu o traumático impeachment de Dilma Rousseff, que dividiu o país, e resistiu ainda à ofensiva liberticida promovida por grupos golpistas reunidos em torno de Jair Bolsonaro. Em todos esses momentos, parecia que o sistema havia chegado ao limite. Ainda assim, a ordem constitucional resistiu.

Isso não significa, contudo, que o problema seja menor do que parece. Pelo contrário. A corrupção permanece profundamente presente no imaginário do eleitor porque ela existe de fato. Pesquisas recentes indicam que o tema figura entre as principais preocupações nacionais, ao lado da segurança pública e da situação econômica.

É natural, portanto, que as revelações mais recentes tenham repercussões no ambiente político e eleitoral. A proximidade das eleições tende a ampliar o peso do assunto no debate público. Quando casos atingem atores posicionados em diferentes campos políticos — da esquerda à direita, passando pelo onipresente Centrão —, reforça-se a percepção de que a corrupção não pertence a um único espectro ideológico. Essa constatação pode estimular maior exigência por integridade na vida pública, mas também pode alimentar a perigosa narrativa de que “todos são iguais”.

É justamente nesse ponto que mora o perigo. A indignação é legítima; o ceticismo absoluto, não. Há uma diferença essencial entre reconhecer a gravidade dos fatos e concluir que a República está capturada por malandros irrecuperáveis. Essa conclusão interessa apenas aos demagogos. A descrença generalizada costuma ser o terreno fértil para líderes que prometem varrer o sistema em nome de uma regeneração moral que, na prática, raramente fortalece as instituições.

A resposta adequada aos escândalos não é o cinismo nem a ruptura da confiança institucional, mas a responsabilização. Cada denúncia deve ser investigada com rigor. Se empresários tentaram comprar influência, precisam responder por isso. Se autoridades abusaram de suas posições, devem ser punidas. É preciso, portanto, cautela ao tratar da República. A água pode estar turva e precisa ser renovada. Mas o bebê continua ali — e é dele que depende o futuro do país. A democracia brasileira não está condenada. Como em outros momentos de sua história, ela dependerá da vigilância da sociedade, da responsabilidade das lideranças políticas e da severidade do eleitor ao julgar, nas urnas, aqueles que traem a confiança pública.