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Saúde

Temporada de gripe vem mais intensa

Vice-presidente da SBIm, Renato Kfouri afirma que País enfrenta temporada atípica de influenza e defende vacinação o quanto antes, inclusive para quem não integra os grupos prioritários
Por O Correio de Hoje
19/05/2026 | 12:26

A sensação de que há mais pessoas gripadas neste ano não é mera impressão. Segundo o infectologista Renato Kfouri, 2026 apresenta um comportamento fora do padrão da influenza, com circulação antecipada do vírus e maior velocidade de transmissão.

Em entrevista ao jornal O Globo publicada nesta terça-feira 19, Kfouri — que também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações e secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria — afirmou que o País vive “um ano atípico para a gripe, com o vírus circulando muito precocemente e uma taxa de transmissão mais alta do que a habitual”.

Médico gripe foto Vinicius Loures Câmara
Infectologista Renato Kfouri diz que gripados podem se vacinar, desde que não tenham tido febre - Foto: Vinicius Loures / Câmara

O cenário é corroborado pelo boletim Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz, segundo o qual todas as unidades da federação registram alta incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), impulsionada principalmente pelos vírus influenza e sincicial respiratório (VSR).

Diante do aumento de casos, municípios que inicialmente restringiram a vacinação aos grupos prioritários passaram a ampliar a imunização para toda a população acima de seis meses de idade.

Kfouri explicou que a estratégia inicial do Ministério da Saúde de priorizar determinados grupos decorre de um dado epidemiológico consistente: entre 70% e 80% das mortes por gripe ocorrem justamente entre idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com comorbidades.

“Quando você olha para os números de mortes, essas são as principais vítimas, por isso se foca e se insiste muito nas coberturas desses grupos”, afirmou.

Outro fator que influencia a estratégia é a capacidade de produção de vacinas. Segundo o infectologista, o Instituto Butantan, responsável por praticamente toda a produção nacional, não consegue entregar as 70 milhões de doses adquiridas pelo governo federal de uma só vez.

“O Brasil compra 70 milhões de doses. Se levar em conta que somos 215 milhões de habitantes, isso corresponde a aproximadamente um terço da população”, observou.

Na prática, isso significa que, se a vacinação fosse aberta imediatamente para todos, poderia faltar imunizante para os grupos com maior risco de hospitalização e morte.

“Se você já recebe um milhão de doses e libera para todo mundo, em teoria, está deixando um velhinho sem vacina”, exemplificou.

Nos últimos anos, porém, o País não conseguiu atingir a meta de cobertura nos grupos prioritários. Por isso, após um determinado período, as doses remanescentes costumam ser disponibilizadas para toda a população.

Embora a estratégia de priorização seja tecnicamente justificada, Kfouri reconhece que, em 2026, a antecipação da circulação do vírus criou um desafio adicional.

“Não costumamos ter uma temporada tão precoce de influenza. Geralmente começa a circular no fim de abril ou em maio. Este ano tivemos um pico de influenza A em abril e agora um pico de influenza B, o que é incomum”, disse.

Segundo ele, a ampliação da vacinação para o público geral ocorreu em um momento em que o vírus já estava disseminado.

“Estamos liberando a vacina para todo mundo de uma maneira mais tardia. Não porque esteja tarde, mas porque o vírus chegou cedo.”

O especialista reforçou que a vacina aplicada em 2025 já não oferece proteção relevante neste momento.

“Mesmo que o vírus não mude nada, depois de seis meses a proteção conferida pela vacina é praticamente zero”, explicou. Por esse motivo, a imunização deve ser repetida todos os anos.

A composição da vacina é definida pela Organização Mundial da Saúde, que em setembro de cada ano recomenda quais cepas deverão ser incluídas na formulação para o Hemisfério Sul. A partir daí, os laboratórios produzem as doses que serão aplicadas entre fevereiro e março do ano seguinte.

Como a definição é baseada em projeções, nem sempre há coincidência perfeita entre as cepas escolhidas e os vírus que efetivamente circulam. “Nem sempre acertam”, resumiu Kfouri.

Ainda assim, ele ressalta que a proteção nunca é nula. “Sempre ajuda um pouco. Não é zero proteção, mas pode não ser a proteção ideal.”

Na média dos últimos dez anos, a eficácia da vacina em adultos jovens gira em torno de 60%. Entre idosos, a prevenção da infecção pode ser menor, mas a proteção contra hospitalizações e casos graves permanece significativa.

Kfouri também desfez um mito comum: pessoas com sintomas leves, como tosse ou coriza, podem ser vacinadas normalmente. A única contraindicação temporária é a presença de febre. “Se está com tosse, pode tomar vacina. Não precisa esperar melhorar de nada”, afirmou.

Como a resposta imunológica leva cerca de duas semanas para se consolidar, o ideal é não adiar a imunização. “A vacina leva pelo menos 15 dias para fazer efeito. Quanto antes a pessoa se vacinar, melhor.”

A vacina contra a gripe também pode ser administrada no mesmo dia que outros imunizantes, incluindo vacinas contra Covid-19 e dengue. “Com todas. A vacina de influenza não tem contraindicação nenhuma”, afirmou.

Segundo o infectologista, a ida ao posto de saúde pode ser uma oportunidade para atualizar o calendário vacinal. “Vale ver as vacinas que estão em falta e colocar tudo em dia. É uma oportunidade que não se pode perder.”