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Nívea Maria diz que teatro trouxe redescoberta profissional aos 79 anos

Aos 79 anos, atriz afirma que os palcos têm lhe permitido mostrar novas facetas de seu trabalho e diz que continua atuando por prazer e também por necessidade
Por O Correio de Hoje
19/05/2026 | 13:03

Com 62 anos de carreira e quase 70 trabalhos em televisão, a atriz Nívea Maria construiu uma trajetória marcada por papéis de destaque em novelas e séries. Agora, aos 79 anos, ela vive uma fase de maior aproximação com o teatro, experiência que, segundo a própria artista, tem proporcionado uma redescoberta profissional.

Em entrevista ao jornal O Globo, Nívea afirmou que, nos últimos anos, passou a participar de mais montagens teatrais do que produções para a TV.

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Nivea Maria como Margarida na novela “Êta Mundo Melhor!” (2025-26), da TV Globo - Foto: Instagram / Reprodução

“O público de TV às vezes cristaliza um ator, colocando-o no ‘pedestalzinho’ de um personagem. E assim todos se surpreendem quando faço alguma coisa nova”, disse, em tom bem-humorado. “O teatro me oferece mais oportunidade de mostrar a atriz diferente que sou. Parece que estou começando a carreira de novo.”

Atualmente, a atriz está em cartaz com a peça Querida Mamãe, em temporada até 28 de junho no Teatro dos Quatro, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro. O espetáculo, adaptação do texto de Maria Adelaide Amaral com direção de Pedro Neschling, retrata o confronto entre uma mãe conservadora e a filha contestadora, interpretada por Regiane Alves.

A obra retoma um tema recorrente em montagens recentes protagonizadas por Nívea, como Ensina-me a Viver e Norma: os conflitos entre pessoas com visões de mundo distintas. Para a atriz, o valor da escuta e da compreensão é o principal eixo da narrativa.

“Apesar de as discussões serem pesadas, tudo ocorre, na trama, na base da tentativa de compreensão. Ficar só em brigas significa perder tempo. Temos que ser felizes, porque a vida é muito curta. Mas a gente vê o oposto na sociedade, né?”, afirmou. “Apesar de tanta modernidade, ainda existem pessoas, tanto homens quanto mulheres, apontando o dedo para as diferenças. E a peça mostra o quanto isso é fútil. Como diz a personagem que interpreto, ‘nada é eterno’. Tudo acaba, tudo tem um fim… Então, vamos viver o que a vida nos apresenta.”

A experiência pessoal da atriz também dialoga com esse discurso. No início da carreira, aos 18 anos, Nívea enfrentou a resistência do pai, descrito por ela como um advogado “rígido e moralista”, para estrear na novela A Moça que Veio de Longe, da extinta TV Excelsior. A irmã, a também atriz Glauce Graieb, seguiu caminho semelhante, com o apoio discreto da mãe, pianista.

“Só o fato de optar pela profissão de atriz foi como abrir portas dentro de minha própria família, que tinha restrições aos artistas”, relembrou. “Após um tempo, meu pai entendeu minha personalidade livre e viu que eu tinha juízo para conduzir a vida. Hoje, abro essa questão para mostrar que todos nós temos nossas pedras no meio do caminho. E que a gente só não pode parar. Tem-se que ir em frente.”

Apesar da postura independente, Nívea afirma que nunca teve o hábito de se manifestar politicamente em público.

“Não me pronuncio sobre alguns assuntos porque acho que isso não é a coisa mais importante. O que posso resolver, eu faço. O que não posso, deixo a coisa andar. Nunca flameei bandeira e até hoje acho que não vale a pena”, afirmou. “Mas acho que, através do meu trabalho, me imponho de um jeito legal, em todos os sentidos.”

Mãe de três filhos — Edson, de 58 anos, Viviane, de 54, e Vanessa, de 45 — e avó de três netos, a atriz vive sozinha há cerca de dez anos e diz estar satisfeita com essa fase da vida.

Embora já esteja aposentada, Nívea afirma que não pensa em interromper a carreira.

“Tenho que trabalhar para isso. Não dá para parar. Trabalho para sobreviver”, disse, ao observar que o valor da aposentadoria é baixo. “Enquanto tiver memória, estarei disposta a tudo. Tenho uma cabeça boa e o prazer de fazer as coisas. Trabalhar é saúde para mim. É colocar-se em movimento.”

Ao longo da carreira, Nívea interpretou protagonistas em novelas como A Moreninha e Maria, Maria. Apesar da longa trajetória, diz nunca ter cultivado a imagem de diva.

“Sempre procurei não deixar que os outros endeusassem a minha figura só porque apareço na TV. Sou igual a qualquer outra pessoa. E adoro ter uma rotina normal: vou à rua, às lojas, ao mercado…”, afirmou.

A atriz também demonstrou reservas em relação às redes sociais. Embora mantenha uma conta no Instagram, diz não se preocupar com o número de seguidores.

“Rede social é um negócio para os meus netos. Mas fico triste de ver as pessoas se perderem nesse universo em que não se ganha nada: nem alegria, nem saúde, nem dinheiro. Prefiro o olho no olho, bater papo, almoçar junto a amigos, tomar caipirinhas, dar risada.”

Com décadas de experiência na televisão, Nívea avalia que o avanço tecnológico alterou o processo de produção das novelas.

“Fazer TV hoje realmente é bem diferente de antigamente. A gente passou a trabalhar para a tecnologia. E, às vezes, o ofício artístico fica meio embaçado diante de tantos efeitos especiais e técnicas”, observou.

Recentemente, ela voltou às novelas ao integrar o elenco de Êta Mundo Melhor!, encerrando um intervalo de seis anos longe do gênero.

Ao comentar o debate sobre etarismo, a atriz defendeu que autores criem personagens maduros mais densos e relevantes.

“Os autores devem valorizar, dentro de suas histórias, todas as gerações: o bebê, a menina, o jovem, o homem e a mulher madura e também os velhos. A novela tem que ser um leque aberto de personagens para o público conseguir se identificar ali”, afirmou.