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Música

Noca da Portela deixa legado que atravessa gerações do samba brasileiro

Compositor de sucessos gravados por grandes intérpretes e vencedor de sete sambas-enredo da Portela, sambista morreu aos 93 anos e será velado na quadra da escola em Madureira
Por O Correio de Hoje
19/05/2026 | 13:20

A morte de Noca da Portela, aos 93 anos, representa uma perda que vai muito além da Portela. Embora tenha construído uma trajetória profundamente ligada à escola de Oswaldo Cruz, onde venceu sete disputas de samba-enredo e incorporou o nome da agremiação ao próprio nome artístico, Noca consolidou uma obra vasta e diversa, que o coloca entre os grandes compositores da música popular brasileira.

Nascido Osvaldo Alves Pereira, Noca também teve passagens marcantes por outras instituições do samba carioca, como o Paraíso do Tuiuti, onde já colecionava vitórias em concursos antes de chegar à Portela, e o Cacique de Ramos. Para o grupo liderado por Bira Presidente, compôs Caciqueando, gravada com sucesso por Beth Carvalho.

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Noca da Portela e seu legado no samba - Foto: Reprodução

Noca também integrou o histórico Trio ABC, ao lado de Colombo e Picolino, e manteve ao longo da vida uma atuação politicamente engajada, característica que o aproximava de nomes como Paulo da Portela e Candeia. Como eles, aliava consciência social, elegância e plena noção da importância de sua arte.

Durante a ditadura militar, aproximou-se de artistas e intelectuais ligados à esquerda, entre eles o parceiro Mauro Duarte e o ex-jogador Afonsinho. Frequentador assíduo do Barbas, reduto comandado pelo jornalista Nelsinho Rodrigues, Noca participou da criação do Bloco do Barbas, em 1985, uma das iniciativas que ajudaram a impulsionar a retomada do carnaval de rua da Zona Sul do Rio, ao lado do Simpatia é Quase Amor.

Nesse ambiente de intensa produção cultural e política, consolidou-se também como parceiro de diversos compositores. Em 1998, ao lado de Roberto Medronho, Roberto Serrão e Carlinhos Doutor, venceu o concurso do Simpatia com o samba Deixa Falar, posteriormente gravado por Monarco.

Quem conviveu com Noca destaca sua generosidade e a disposição para abrir espaço a novos talentos. Apesar da forte ligação com a Portela, sua atuação extrapolava os limites da escola, tornando-o uma figura respeitada em diferentes rodas de samba e ambientes culturais.

O pesquisador e jornalista Ricardo Cravo Albin resumiu essa dimensão ao escrever que “Noca carregava o samba com a naturalidade dos escolhidos. Seus versos jamais eram artificiais. Vinham da alma popular brasileira, das ruas, dos terreiros, das madrugadas, das procissões. Das alegrias e também das dores do nosso povo”.

O compositor Paulinho da Viola, que conheceu Noca ainda nos tempos do Tuiuti, recordou um episódio que ilustra o temperamento afetuoso do amigo.

“Certa vez, encontrei Noca na feira onde ele trabalhava, no Largo do Machado, e ele me trouxe uma sacola de frutas e legumes que tinha recolhido com os colegas. Ele era essa pessoa generosa, sempre com um sorriso no rosto, sempre contando histórias engraçadas.”

Os dois se reencontraram na Portela, e Paulinho guarda com emoção a lembrança do desfile de 1995, embalado pelo samba-enredo Gosto que Me Enrosco, composto por Noca, Colombo e Gelson.

“Eu estava afastado há tempos e voltei a desfilar. O samba era um acontecimento e a Portela quase levou o campeonato. Tenho a lembrança de ver um integrante da velha guarda chorando, emocionado, num dos carros da escola. Ele tinha o dom da emoção”, afirmou.

Entre os grandes momentos de sua carreira como compositor estão sambas-enredo como Gosto que Me Enrosco, de 1995, e Olhos da Noite, de 1998, ambos vencedores do Estandarte de Ouro. Noca também assinou parcerias marcantes, como Mil Reis, com Candeia; Vendaval da Vida, com Delcio Carvalho; Peregrino, com Toninho Nascimento; e A Alegria Continua, com Mauro Duarte.

Sua obra foi interpretada por artistas como Beth Carvalho, Clara Nunes, Elza Soares, Maria Bethânia, Paulinho da Viola, Bezerra da Silva, Nara Leão e Martinho da Vila, com quem compôs Nem a Lua.

No álbum Brasil Mestiço, lançado em 1980, Clara Nunes gravou Última Morada, parceria de Noca com Natal. A letra expressa o desejo de um sambista para sua despedida:

“Quando eu morrer / Eu quero uma batucada / Pra me levar pra minha última morada…”.

Esse desejo será atendido. O velório de Noca da Portela ocorre nesta terça-feira, a partir das 8h, na quadra da Portela, na Rua Clara Nunes, em Madureira, com cerimônia aberta ao público até as 14h.

Ao deixar uma obra extensa, sofisticada e ainda pouco conhecida fora do universo do samba, Noca da Portela reafirma seu lugar entre os grandes compositores brasileiros, cuja produção merece ser revisitada e estudada pelas novas gerações.