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História
Rita Lee: A prisão na ditadura durante a primeira gravidez e a visita de Elis Regina na cadeia
Ela estava grávida de três meses de seu primeiro filho, Beto Lee, quando, às 7h30 do dia 24 de agosto, a Divisão de Entorpecentes bateu à porta de sua casa na Vila Mariana
O Globo
24/09/2021 | 18:50

Rita se encontrava presa desde a semana anterior. Ela estava grávida de três meses de seu primeiro filho, Beto Lee, quando, às 7h30 do dia 24 de agosto, a Divisão de Entorpecentes bateu à porta de sua casa na Vila Mariana. Na versão da polícia para a imprensa da época, os agentes foram à residência da cantora após receber denúncias sobre uso de drogas durante a temporada de shows da roqueira com a banda Tutti-Frutti no Teatro Aquarius. Na manhã daquela terça-feira, a tia da artista abriu a porta, os agentes entraram, reviraram tudo e, mais tarde, disseram ter encontrado no local 300 gramas de maconha, restos de cigarros e um narguilê.

 

Rita Lee com Roberto Carvalho e o filho Beto, já com 2 anos, em 1979

Numa entrevista à revista “Quem” em 2010, Rita disse que aquilo foi tudo plantado pela polícia. Na época, ela garantiu que a droga não era sua e que ela tinha parado de fumar porque estava grávida. Mas os agentes não deram ouvidos. O Brasil vivia uma ditadura militar e, ainda que em 1976 o governo já cogitasse a abertura política, as polícias estavam comprometidas com uma guerra declarada a usuários de drogas. Hippies eram tratados como bandidos e, segundo a cantora, ela foi usada de troféu. Até porque Rita simbolizava a liberdade sexual feminina em um período muito conservador do país. Várias de suas músicas foram consideradas eróticas demais e censuradas ou modificadas para não ferir a “moral e os bons costumes”.

A ex-vocalista dos Mutantes foi presa junto com suas empresárias e oito integrantes da Tutti-Frutti. De início, ela ficou no Departamento Estadual de Investigaçõestou Criminais (Deic). Foi lá que, no segundo dia de xadrez, apareceu ninguém menos que Elis Regina levando pela mão o filho João Marcello Bôscoli, então com 6 anos. “Na época dos festivais da Record, Mutantes e Tropicalismo, Elis passava pela gente virando a cara. Ela fez parte daquela passeata contra a guitarra elétrica na música brasileira. A última pessoa que eu esperava que fosse me visitar na cadeia era a Elis”, contou Rita numa live com o amigo Ronnie Von, em novembro do ano passado. “Quando o carcereiro falou: ‘Oh, Ovelha Negra, tem uma cantora famosa rodando a baiana, dizendo que vai chamar a imprensa. Ela quer te ver'”.

 

Rita Lee com a banda Tutti-Frutti, em novembro de 1973

Hoje com 73 anos de idade, a roqueira disse que saiu da cela curiosa para saber de quem ele estava falando. “Fiquei esperando, não sei, uma Nossa Senhora do Rock, e, de repente, vejo a Elis com o João Marcelo. Ela soltou a mão do filho e me deu um abraço. Perguntou como eu estava, disse que eu estava muito magra. Aí começou a falar duro com os policiais: ‘O que vocês estão fazendo com ela?'”, relembrou Rita. “O que ela berrou, o que ela aprontou lá dentro… E você pensa que os caras falavam alguma coisa? Não falavam nada. Ela baixinha cobrando: ‘Eu quero um médico já. Se não vier já, eu chamo a imprensa’. Ninguém mexia com a Elis. Ela era do Olimpo. Que mãezona! Mandou que comprassem comida para mim, deu dinheiro e ainda pediu troco (risos). Me ajudou como se fosse uma amiga de infância”.

A roqueira dos cabelos ruivos também era grande na cena nacional. Em 1975, lançara o disco “Fruto proibido”, cheio de hits como “Agora só falta você” e “Ovelha negra”. Diferentemente de Elis, Rita era vista como subversiva, mas, ainda assim, era uma estrela. Depois de dois dias no Deic, ela foi levada ao presídio feminino do Hipódromo, onde encontrou uma recepção calorosa das detentas.  “Eu saí do camburão escutando palmas e gritos”, contou a artista em entrevista publicada pelo GLOBO em 4 de novembro de 1976. “Pensei comigo: ‘será que estou sonhando?’ Aí, vi pelas gradezínhas as mâozlnhas acenando pra mim e ouvi gritos de ‘Rita, Rita, Rita!’. Para chegar na minha cela, atravessei um corredor, e elas dando a maior força”.

 

Rita Lee durante o show 'Cães & Gatos', em 1978

Na mesma conversa com a equipe do jornal, a artista disse que estranhou a comida da penitenciária, mas que engolia tudo, “morrendo de vontade de sobreviver, pensando sempre no meu filho”. Ela escreveu uma carta para o guitarrista Roberto de Carvalho, pai de Beto Lee e companheiro dela até hoje. Naquelas páginas, agora expostas na mostra “Samsung Rock Exhibition Rita Lee”, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, Rita se dizia conformada quanto a dar à luz na prisão e pedia ao amor de sua vida para não esperar e “fazer o que quiser”. Felizmente, o período atrás das grades não se prolongaria muito mais.

Depois de oito dias no Hipódromo, a cantora se apresentou na 20ª Vara Criminal para o julgamento. Foi condenada a um ano de prisão domicilar e multa de 50 salários mínimos. Nesse período, Rita morou na casa de seus pais, na Vila Mariana. Ela podia sair diariamente, a partir das 7h, mas tinha que estar de volta às 19h. Na entrevista ao GLOBO, em novembro de 1976, a cantora disse que, apesar do calor das outras detentas, viveu momentos de muita tristeza na cadeia, sem saber quando sairia dali. “Se eu não estivesse grávida, acho que não suportaria. Ele me deu muita força, naquele momento de desespero”.

 

Rita Lee com Sérgio Dias e Arnaldo Baptista ainda na época dos Mutantes, em 1968

Na casa dos pais, a artista foi obrigada a suspender a vida normal de uma estrela do rock. Só podia sair à noite para fazer shows e, mesmo assim, tinha que se submeter a exames toxicológicos. “Acordo cedo, faço natação, que é um exercício legal para a gravidez, volto, tomo café, almoço, escuto um pouco de música e vou para o ensaio no nosso estúdio de Vila Alpina. Fico lá até as cinco da tarde. Aí volto, pois o meu tempo está se esgotando”, contou a roqueira ao GLOBO naquela entrevista de novembro de 1976. “À noite, fico escrevendo, compondo, assisto a todas as novelas, analiso os personagens. Vejo também os noticiosos, tomando conhecimento do que se passa aqui e no mundo”.

 

Quando Beto Lee nasceu, em março de 1977, Rita ainda estava em prisão domicilar. Ela chegou a escrever uma música, “X 21”, inspirada nos dias de Hipódromo (sua cela era o “xadrez 21”), mas a canção foi proibida pela censura. Nos anos seguintes, mesmo com a distenção política, a roqueira continuaria sendo alvo frequente do moralismo. A letra do hit “Banho de espuma”, por exemplo, teve que ser alterada para entrar no álbum “Saúde”, de 1981. A original dizia “Em plena vagabundagem/Em qualquer posição/Falando muita bobagem/Bulinando com água e sabão”. Depois de passar pelo filtro dos militares, ficou: “Em plena vagabundagem/Com toda disposição/Falando muita bobagem/Esfregando com água e sabão”. Para alguns pesquisadores, Rita foi uma das artistas mais censuradas da ditadura. Título este que, hoje, a cantora, ironicamente, considera uma espécie de estrela no currículo.

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