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Consumo na pandemia
Psicólogo alerta para perigo do abuso de bebidas alcoólicas
No Dia de Combate ao Alcoolismo, celebrado nesta quinta-feira 18, uma pesquisa revela um aumento no consumo nocivo de álcool durante período de isolamento social no Brasil. Mais de 52% dos entrevistados afirmam que bebem para relaxar. Especialista comenta sobre preconceito e desinformação sobre alcoolismo
Redação
18/02/2021 | 03:20

Fim do expediente no home office e você abre uma cerveja para relaxar: o que é um hábito inofensivo para muitos pode se tornar perigoso se adotado com frequência. De acordo com pesquisa feita pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o abuso de álcool subiu na América Latina durante a pandemia e, no Brasil, 42% dos entrevistados relataram alto consumo da substância.

Do total de 3.799 entrevistados no Brasil, 52,8% relataram o uso da bebida alcoólica como método para relaxar de ao menos um sintoma emocional como ansiedade, nervosismo, insônia, preocupação e irritabilidade. Para o psicólogo Zacarias Ramalho, docente da Estácio, esse comportamento é problemático, porque funciona como um refúgio não saudável para sentimentos de medo e de solidão.

“Esse hábito pode vir a se transformar em uma dependência, porque é um comportamento voltado às faltas que afloraram durante o isolamento. Há pessoas que não desenvolveram sua resiliência, que é a capacidade de atravessar situações conflituosas, e é perigoso fazer uso da bebida alcoólica como mecanismo de defesa, para não vivenciar um momento de sofrimento de fato”, afirmou o psicólogo.

Na pesquisa realizada entre maio e junho de 2020 também foi observado nos entrevistados entre 30 e 39 anos um aumento do comportamento conhecido como Beber Pesado Episódico (BPE), que ocorre quando a pessoa ingere cerca de cinco doses de bebida, o equivalente a 60 gramas de álcool, em uma única ocasião.

O especialista alerta que o consumo nocivo de bebidas alcoólicas, antes do vício, já é considerado um transtorno mental. “Neste momento, o indivíduo já possui uma condição patológica que necessita de acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, porque o uso abusivo pode levar a transtornos mais graves, com consequências físicas, psicológicas e comportamentais, como agravamento da violência doméstica, acidentes de trânsitos, dentre outros”, explicou.

Além de afetar quem consome a bebida de forma desequilibrada, o alcoolismo é uma doença que atinge também todos os que estão à sua volta. “O sujeito que vivencia o alcoolismo, ou outros transtornos associados ao uso de substâncias psicoativas, tem perdas no processo de interação que podem afetar seus empregos e família, já que se isola do meio no qual convive, devido aos prejuízos que o alcoolismo causa”, destacou.

Nesta quinta-feira 18 é celebrado o Dia de Combate ao Alcoolismo, uma doença crônica causada por diversos fatores. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em todo o mundo, 3 milhões de mortes por ano são causadas pelo uso nocivo do álcool, representando 5,3% de todas as mortes, sendo esse uso um fator causal para mais de 200 doenças e lesões e tendo ele relação com uma série de transtornos mentais e comportamentais.

Efeitos do excesso de álcool no organismo

O professor do curso de Enfermagem da Estácio, Alon Rocha, explica que o álcool é uma substância que diminui a atividade cerebral favorecendo uma alteração da ação de neurotransmissores, como o ácido gama-aminobutírico, o glutamato e a serotonina. “Conforme a pessoa ingere a bebida, o organismo reage deprimindo as funções cerebrais, alterando funções devido sua ação direta no sistema nervoso central. Sua ação pode variar em cada pessoa de acordo com a quantidade ingerida, a idade, a frequência de uso, o sexo e condições de saúde da pessoa”, explicou.

Sobre a ação da substância, o enfermeiro especialista em Terapia Intensiva com atuação em atendimento em Emergência, explica ainda que, em doses baixas de álcool no organismo, a pessoa tem uma tendência ao relaxamento, desinibição e euforia, e conforme a concentração de álcool aumenta, o organismo responde com outras reações, como diminuição dos reflexos, déficit de atenção e de memória, falta de equilíbrio e deficiência no raciocínio.

“Em níveis alcoólicos muito altos, a pessoa pode evoluir para intoxicação severa, associada a possibilidades de sequelas neurológicas, parada respiratória e até mesmo morte. O álcool pode aumentar o risco de câncer e danos neurológicos, causar lesões hepáticas, irritação no estômago, problemas no pâncreas, disfunção renal e problemas cardíacos”, alertou.

Alon destaca que a dependência causada pelo álcool é grave e diz que à medida que ele se liga aos receptores cerebrais, alguns mediadores químicos começam a aumentar, como os níveis de serotonina, o que contribui para a sensação de alegria que a pessoa recebe depois de tomar uma ou duas doses. O professor da Estácio ressalta que a utilização do álcool a longo prazo provoca mudanças na química do cérebro.

“Quando alguém bebe muito, durante muito tempo, o cérebro começa a neutralizar os efeitos retardadores do álcool, aumentando a atividade dos neurotransmissores excitatórios para que ele funcione normalmente. Contudo, com o cérebro estimulado nesse estado intensificado, a pessoa requer mais e mais quantidades de álcool para alcançar os efeitos desejados, num fenômeno conhecido como tolerância. No entanto, quando a pessoa deixa de tomar o álcool, ela começa a experimentar sintomas angustiantes de abstinência. Essas mudanças, juntamente com os desejos de beber, acabam causando dependência, com desejo excessivo e frequente de beber álcool”, pontuou o especialista.

Muitas pessoas não têm conhecimento de que o alcoolismo é uma doença e a desinformação sobre ela pode ser uma das causas do preconceito vivido pelos alcoolistas, termo correto para designar as pessoas que sofrem com o transtorno do abuso da substância. O psicólogo e cientista social, Pedro Dinelli Cruz, professor do curso de Psicologia da Estácio, explica que os conceitos prévios e a pré-formação de ideias que muitos têm sobre o uso abusivo do álcool podem vir do senso comum, dos campos religiosos ou científico, ou do modo de ver a vida, e o importante é buscar sempre fontes seguras e éticas para formar uma opinião antes de fazer um julgamento.

“As pessoas tendem a reduzir a vida ou as ações de um alcoolista à falta de caráter ou a uma personalidade deteriorada, e isso é errado. Não podemos reduzir o consumo compulsivo de álcool a contextos isolados, como problemas de personalidade, ou ao meio em que o indivíduo vive. Nenhum desses pontos pode ser compreendido longe um do outro. As motivações são diversas, e o contexto também. Quando a pessoa começa a usar álcool, ela não tem a intenção de tornar esse uso abusivo”, ponderou.

Para o psicólogo, o primeiro grande passo de um alcoolista na luta contra a dependência é pensar em pedir ajuda, e em seguida procurar alguém de confiança que possa auxiliar durante tratamento.

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