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Super El Niño

Previsões apontam risco de um dos El Niños mais intensos já registrados

Fenômeno pode igualar ou superar eventos históricos, elevar temperaturas globais e alterar o regime de chuvas no Brasil durante a temporada 2026/2027
Por O Correio de Hoje
16/07/2026 | 16:10

Após meses de debates sobre a intensidade do próximo El Niño, pesquisadores passaram a ter um cenário mais definido para a temporada 2026/2027. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou que há 81% de probabilidade de o fenômeno alcançar a categoria “muito forte”, a mais elevada da escala, até setembro.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno ocorre, em média, a cada dois a sete anos, costuma durar cerca de 12 meses e influencia o clima em diferentes regiões do planeta, contribuindo para o aumento das temperaturas globais e alterações nos padrões de chuva.

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Modelos climáticos indicam 81% de probabilidade de o El Niño atingir a categoria “muito forte” até setembro - Foto: josé aldenir

Um Super El Niño é definido quando a anomalia da temperatura da superfície do Pacífico ultrapassa 2°C em relação à média histórica. Segundo especialistas, a redução do intervalo entre episódios de grande intensidade está associada ao avanço das mudanças climáticas.

“Episódios de El Niño estão se tornando mais frequentes e mais intensos, o que resulta do aquecimento dos oceanos por conta da mudança climática”, afirmou ao Estadão o coordenador-geral de operações e modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Seluchi. De acordo com ele, a intensidade prevista para este ciclo pode ser comparável à dos eventos registrados em 2015/2016 e 2023/2024.

Levantamento da empresa de meteorologia MetSul indica que os primeiros modelos climáticos divulgados em julho projetam anomalias entre 3°C e 4°C no Pacífico Equatorial durante o último trimestre do ano, um patamar que, segundo a empresa, não foi observado nos últimos 150 anos. Diante dessas projeções, a NOAA precisou ampliar a escala utilizada em seus gráficos de previsão para acomodar valores mais elevados.

Os registros históricos da agência norte-americana mostram que a maior anomalia já observada ocorreu durante o El Niño de 2015/2016, quando a temperatura do oceano atingiu 3°C acima da média em uma semana de novembro de 2015. O segundo maior pico foi registrado no evento de 1982/1983, com 2,6°C. Já o fenômeno de 1997/1998, considerado um dos mais impactantes pelos efeitos provocados em diferentes partes do mundo, chegou a 2,3°C. O episódio de 2023/2024 alcançou 2,1°C, permanecendo entre os mais intensos da série histórica.

No Brasil, as projeções oficiais indicam chuvas acima da média para parte da Região Sul e precipitações abaixo da média na faixa centro-norte do país. Também há previsão de temperaturas superiores à média em grande parte do território nacional durante o segundo semestre, cenário que favorece a ocorrência de ondas de calor e amplia o risco de incêndios florestais.

Apesar da relação entre o aquecimento do Pacífico e alterações no clima, meteorologistas da MetSul observam que não existe uma relação direta entre a intensidade do El Niño e a magnitude dos desastres registrados no Brasil. Eventos de grande intensidade, como os de 1982/1983, 1997/1998 e 2015/2016, produziram impactos distintos na distribuição das chuvas e nos períodos de seca. Da mesma forma, episódios classificados como moderados também estiveram associados a eventos extremos.

Um exemplo citado é o El Niño de 2023/2024. Embora tenha apresentado intensidade inferior à dos maiores eventos da série histórica, o fenômeno coincidiu com a inundação recorde no Rio Grande do Sul, desastre que deixou quase 200 mortos.

Além das projeções para o próximo El Niño, pesquisadores dos Estados Unidos estudam formas de reduzir artificialmente a intensidade do fenômeno. Em artigo publicado na revista Science Advances, cientistas avaliaram, por meio de simulações computacionais, uma técnica conhecida como clareamento de nuvens marinhas.

A proposta consiste em dispersar partículas de sal na atmosfera para tornar as nuvens mais refletivas, aumentando a quantidade de radiação solar devolvida ao espaço e reduzindo o aquecimento da superfície do oceano. A técnica faz parte do conjunto de tecnologias conhecidas como geoengenharia solar, frequentemente discutidas como alternativas para reduzir os efeitos do aquecimento global.

Os pesquisadores aplicaram o modelo climático aos eventos de 1997/1998 e 2015/2016 para simular o efeito da intervenção antes da formação dos fenômenos. Os resultados indicaram potencial para reduzir a intensidade do aquecimento das águas do Pacífico, mas a tecnologia ainda permanece em fase exclusivamente teórica, sem testes em ambiente real.