A Polícia Federal rejeitou a proposta inicial de delação premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por considerar insuficientes os fatos que ele se dispôs a relatar em troca de benefícios judiciais, como redução de pena.
Segundo as investigações, Vorcaro não apresentou elementos considerados relevantes pelas autoridades, apesar do avanço das apurações sobre o esquema financeiro investigado. A decisão da PF já foi comunicada à defesa do empresário.

A Procuradoria-Geral da República (PGR), que também participa das negociações, ainda não formalizou posição definitiva sobre o acordo. Mesmo com a rejeição da PF, o Ministério Público pode dar continuidade às tratativas, que ainda dependeriam de homologação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Preso em Brasília, Vorcaro foi transferido nesta semana para uma cela comum na Superintendência da Polícia Federal, passando também a enfrentar regras mais rígidas para visitas de advogados. Procurada, a defesa do banqueiro não comentou as mudanças.
Há cerca de dois meses, Vorcaro assinou um termo de confidencialidade para iniciar negociações de colaboração premiada. Integrantes da PF e da PGR avaliavam, no entanto, que ele precisava ampliar o conteúdo das informações prestadas, sobretudo diante da possibilidade de outros investigados também negociarem acordos.
De acordo com a Folha de S. Paulo, porém, alguns termos da proposta apresentada por Vorcaro também enfrentam resistência na PGR. Um dos itens que contrariaram a PF e também têm resistência de procuradores foi a proposta de devolver cerca de R$ 40 bilhões em 10 anos. Segundo o jornal, a PF e a PGR querem que ele ressarça R$ 60 bilhões que teria desviado em fraudes do Banco Master e em um prazo mais curto.
A primeira versão da proposta, entregue pela defesa em 5 de maio, foi considerada limitada pelos investigadores. De acordo com a apuração, o material obtido em celulares apreendidos com o próprio banqueiro, com o cunhado Fabiano Zettel e com o ex-operador Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, continha mais informações do que aquelas relatadas no rascunho da colaboração.
Entre os episódios que teriam ficado fora do relato está a suposta mesada paga ao senador Ciro Nogueira. Segundo revelou a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, os pagamentos poderiam chegar a R$ 500 mil. A investigação aponta uma relação próxima entre o parlamentar e o banqueiro, identificado pela PF como “destinatário central” de benefícios financeiros.
Em nota, a defesa de Ciro Nogueira afirmou que “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”.
Outro ponto que, segundo a colunista Míriam Leitão, do jornal O Globo, também não apareceu na proposta de colaboração envolve cobranças feitas pelo senador Flávio Bolsonaro para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O projeto audiovisual teria orçamento estimado em até R$ 124 milhões.
As suspeitas envolvendo Ciro Nogueira e a relação entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro vieram a público após a entrega da primeira versão da proposta de delação.
A colaboração premiada prevê a confissão de crimes, entrega de provas e pagamento de multas em troca de benefícios legais, como redução de pena.
Antes do início das negociações, Vorcaro teria solicitado aos investigadores a saída do presídio federal em Brasília e garantias de proteção para familiares.
Na semana passada, a Polícia Federal prendeu Henrique Vorcaro, pai do banqueiro. Ele é investigado sob suspeita de atuar como operador financeiro da chamada “Turma”, apontada como braço armado da suposta organização criminosa ligada ao dono do Banco Master. Segundo a investigação, Henrique também seria “demandante e beneficiário” do grupo suspeito de intimidar adversários de Daniel Vorcaro.
Vorcaro é considerado o líder do esquema investigado, e por isso as autoridades consideram que os termos aplicados a ele na negociação devem ser rígidos. Os custos da quebra do Master superam os R$ 57 bilhões até o momento, segundo dados divulgados.