A Organização Mundial da Saúde (OMS) revisou significativamente os números relacionados ao atual surto de ebola que atinge a República Democrática do Congo (RDC) e Uganda. A entidade informou nesta semana que o total de casos suspeitos caiu de 906, divulgado anteriormente, para 116 registros. Ao mesmo tempo, a OMS contabiliza 330 casos confirmados da doença nos dois países.
A atualização ocorreu após a análise de centenas de notificações que inicialmente eram tratadas como suspeitas de infecção pelo vírus. Segundo a organização, muitos desses pacientes apresentavam outras doenças com sintomas semelhantes ao ebola ou quadros febris sem relação com o vírus.

Dos 330 casos confirmados, 321 foram registrados na República Democrática do Congo, país que concentra a maior parte da transmissão. No território congolês, já foram contabilizadas 48 mortes associadas à doença. Em Uganda, os registros oficiais apontam nove casos confirmados e um óbito.
Durante entrevista coletiva, o porta-voz da OMS, Christian Lindmeier, explicou que o sistema de vigilância epidemiológica adota critérios amplos para identificar possíveis infecções. Segundo ele, qualquer pessoa que apresente sintomas compatíveis com o ebola ou que procure uma unidade de saúde com sinais clínicos semelhantes é inicialmente incluída na categoria de caso suspeito.
O porta-voz enfatizou que “qualquer pessoa detectada por meio de vigilância ou que procure um centro de saúde com sintomas que possam ser semelhantes aos do ebola” é considerada um caso suspeito enquanto aguarda resultados de testes.
Lindmeier explicou que, após a realização dos exames laboratoriais, muitos desses registros acabam sendo descartados. “Em muitos casos esses registros são descartados”, afirmou. Ele citou que parte dos pacientes investigados recebeu diagnóstico de outras enfermidades. “Assim, naturalmente, eles saem da lista de casos suspeitos e deixam de aparecer nessa estatística.”
Entre os diagnósticos identificados após os exames estavam doenças como malária, meningite e outras infecções que podem provocar sintomas semelhantes aos observados nas fases iniciais do ebola.
Apesar da redução expressiva dos casos suspeitos, a OMS avalia que o aumento gradual dos casos confirmados já era esperado. Segundo Lindmeier, a tendência é que o número de notificações suspeitas oscile ao longo do surto, enquanto os casos efetivamente confirmados continuem sendo identificados à medida que as investigações avançam.
Os números anteriormente divulgados pela OMS também incluíam 223 mortes suspeitas de terem sido causadas pelo vírus. No entanto, as novas estatísticas deixaram de contabilizar essa categoria. Lindmeier observou que parte desses registros envolve pessoas que morreram há bastante tempo e cujos corpos não puderam ser submetidos a exames laboratoriais.
O atual surto foi oficialmente declarado em 15 de maio na província de Ituri, localizada no nordeste da República Democrática do Congo. A região enfrenta há anos conflitos armados e instabilidade humanitária, fatores que dificultam as ações de vigilância e resposta sanitária.
Especialistas acreditam que a circulação do vírus começou semanas antes da declaração oficial da emergência. A variante responsável pelo atual surto pertence à espécie Bundibugyo do ebola, cujos sintomas iniciais podem ser confundidos com gripe, malária ou febre tifoide.
Transmitido por meio do contato próximo com pessoas infectadas ou com fluidos corporais contaminados, o ebola pode provocar febre hemorrágica grave e apresenta taxa de letalidade que pode atingir aproximadamente metade dos casos registrados.
Enquanto as autoridades de saúde trabalham para conter a disseminação da doença, o aeroporto de Bunia, capital da província de Ituri, retomou suas operações após nova avaliação epidemiológica do Ministério dos Transportes da RDC.
O surto foi classificado pela OMS como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, o mais alto nível de alerta da organização. É a terceira vez que o mecanismo é acionado para ebola. Apesar disso, o risco global segue como baixo, enquanto no país o risco é classificado como muito alto.
Outro fator que preocupa especialistas é a espécie do vírus em circulação, que não possui vacinas ou tratamentos específicos aprovados até o momento.
Diante desse cenário, autoridades e pesquisadores avaliam terapias experimentais durante o próprio surto.
No Brasil, dois casos suspeitos foram investigados recentemente, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro, ambos descartados após exames laboratoriais.